GRITO DOS/AS EXCLUÍDOS/AS 2026
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A VIDA EM PRIMEIRO LUGAR
Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania!
A década de 1990 foi marcada por profundas questões econômicas e sociais que afetaram diretamente a vida do povo brasileiro, especialmente das populações mais pobres. Hiperinflação, desemprego, fome, privatizações, concentração de renda, bloqueio de contas e poupanças, implantação do Real como nova moeda e o impeachment do então presidente Fernando Collor compuseram um cenário de profundas instabilidades e desigualdades sociais.
Foi nesse contexto social, político e econômico que a 2ª Semana Social Brasileira se propôs a pensar, juntamente com os movimentos sociais organizados, as pastorais sociais, as periferias e os diversos segmentos da sociedade, “o Brasil que a gente quer”. Definiu-se, então, o dia 7 de setembro - data em que se celebra oficialmente a Independência do Brasil - como ocasião para que o povo também pudesse fazer ouvir o seu próprio grito.
Ir às ruas e às praças para soltar o grito que nasce do peito e da consciência; gritar os gritos historicamente silenciados pela fome, pela violência, pelo trabalho mal remunerado, pela destruição e apropriação indevida das terras, pela devastação da natureza, pelos feminicídios e por tantas outras formas de violação da dignidade humana. Era - e continua sendo - o grito das crianças, dos jovens, dos idosos, das mulheres, dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade.
Em 1995, aconteceu o primeiro Grito dos/as Excluídos/as, com o tema “a vida em primeiro lugar”, mobilizando cerca de 170 cidades brasileiras. O Dia da Pátria passou, então, a constituir-se também como um espaço de fortalecimento da consciência política, da luta e da organização popular. A sociedade brasileira começou a realizar uma nova interpretação da própria ideia de “independência” e a formular uma pergunta incômoda, porém necessária: independência para quem?
Diante dessa provocação histórica, os pobres e excluídos também puderam afirmar: nós queremos independência; nós queremos dignidade; nós queremos vida!
Ao longo de sua história, o Grito assumiu diferentes pautas e compromissos sociais. Em 2005, por exemplo, ao refletir sobre a Casa Comum e a democracia, o movimento contribuiu para o debate nacional sobre o desarmamento, num momento em que o Brasil se preparava para realizar uma consulta popular acerca do comércio de armas de fogo. O Grito colaborou para ampliar a discussão pública sobre a necessidade de uma cultura de paz.
Em 2009, durante a realização do 15º Grito dos/as Excluídos/as, a organização popular ganhou ainda mais força. A Rede de Mobilização Popular coletou cerca de 1,3 milhão de assinaturas necessárias para encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de iniciativa popular. Dessa mobilização nasceu a Lei Complementar nº 135/2010, conhecida como Lei da Ficha Limpa, que estabeleceu critérios para impedir candidaturas de pessoas condenadas por crimes graves, corrupção e abuso de poder, afastando-as da possibilidade de disputar cargos eletivos por determinado período.
Em 2026, sob o lema “Mulheres Vivas e Soberania”, o Grito convoca toda a sociedade - homens e mulheres - a refletir, posicionar-se e assumir responsabilidades diante da realidade vivida pelas mulheres brasileiras.
Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres representam 51,5% da população brasileira, enquanto os homens correspondem a 48,5%. As mulheres são, portanto, maioria no país. Entretanto, essa maioria populacional ainda não se traduz em representação proporcional nos espaços de poder e decisão. Nos parlamentos e demais instâncias legislativas, a presença feminina permanece, significativamente, reduzida.
Contudo, a desigualdade de representação política é apenas uma das expressões de uma realidade muito mais grave: a violência contra as mulheres. O feminicídio continua sendo uma das faces mais cruéis da violência estrutural que atravessa a sociedade brasileira. A cada seis horas, uma mulher é assassinada vítima de feminicídio no Brasil. São cerca de quatro mulheres mortas por dia. Registram-se, ainda, inúmeras tentativas de feminicídio e agressões praticadas, cotidianamente, contra mulheres.
Por trás dos números, existem rostos, histórias, famílias e sonhos interrompidos. Não são apenas estatísticas. São vidas ceifadas. São mulheres que tiveram o direito de continuar existindo, brutalmente, interrompido. Em muitos casos, os crimes são cometidos por maridos, companheiros, namorados ou ex-parceiros que não aceitam o fim de um relacionamento e não reconhecem o direito das mulheres de decidirem sobre suas próprias vidas. Há homens que ainda acreditam possuir autoridade sobre o corpo, os desejos, os caminhos e o futuro das mulheres.
Diante de cada feminicídio, a sociedade inteira é chamada a perguntar: até quando? Até quando aceitaremos que mulheres sejam assassinadas por decidirem romper relações violentas? Até quando seus corpos serão tratados como propriedades? Até quando o medo fará parte da rotina de tantas mulheres brasileiras? O silêncio diante da violência também fere. A omissão também mata.
Outro dado profundamente alarmante refere-se à violência sexual. O Ministério da Justiça registra, diariamente, centenas de violações contra pessoas vulneráveis — entre elas crianças, adolescentes, pessoas com deficiência e pessoas idosas. Trata-se de uma realidade que exige atenção permanente do Estado, das instituições, das famílias, das comunidades, das igrejas e de toda a sociedade.
Essas violências revelam, entre outras questões, a permanência de estruturas de poder marcadas pelo machismo e pelo patriarcado. Quando uma mulher é tratada como propriedade de um homem, quando seu corpo é objetificado ou quando sua liberdade é controlada, está-se diante de uma lógica que nega sua dignidade e sua condição plena de sujeito. O patriarcado coisifica as mulheres.
O Evangelho, porém, afirma a dignidade de cada pessoa humana. Por isso, defender a vida das mulheres não é uma pauta secundária. É defender a vida em sua plenitude. É assumir, no concreto da história, o compromisso com aquele projeto de Jesus que afirma: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Há, no Brasil, inúmeras organizações, movimentos e coletivos que reivindicam políticas públicas de proteção, segurança e soberania para as mulheres, bem como o fortalecimento e a efetiva aplicação das leis capazes de enfrentar a impunidade. Entretanto, embora representem conquistas fundamentais, a Lei Maria da Penha e as medidas protetivas ainda não têm sido suficientes para impedirem todas as formas de violência e superar o crescente número de feminicídios.
Isso revela que ainda há um longo caminho a percorrer. Não basta lamentar as mortes depois que elas acontecem. É preciso prevenir. É preciso proteger. É preciso educar. É preciso transformar estruturas culturais que naturalizam a violência. É preciso construir relações baseadas no respeito, na reciprocidade e na igualdade de dignidade.
Inspirados pelo Evangelho de Jesus Cristo - que anuncia vida plena para todas e todos - somos chamados a apressar nossos passos na construção de uma sociedade brasileira mais justa, fraterna e comprometida com a defesa da vida. Que nenhuma mulher precise gritar sozinha. Que nenhuma denúncia seja ignorada. Que nenhuma violência seja naturalizada. Que nenhum feminicídio seja recebido apenas como mais uma notícia.
Onde uma mulher é violentada, a dignidade humana é ferida. Onde uma mulher é assassinada, toda a sociedade é chamada à responsabilidade. Onde uma mulher resiste e levanta sua voz, nasce também uma possibilidade de transformação.
O Grito dos/as Excluídos/as 2026 nos recorda, mais uma vez, que não há soberania verdadeira se as mulheres não puderem viver em segurança. Não há democracia plena enquanto metade da população permanece sub-representada nos espaços de decisão. Não há paz enquanto tantas mulheres vivem sob a ameaça permanente da violência. Por isso, ergamos a voz! Pela terra! Pela paz! Pela moradia! Pela dignidade! E, sobretudo, pela vida!
Mulheres vivas! Mulheres livres! Mulheres com dignidade e soberania!
Que, nas próximas eleições nacionais, saibamos também reconhecer e apoiar candidaturas de mulheres comprometidas com a defesa da vida, dos direitos humanos, de sua dignidade e da construção de um país verdadeiramente justo e fraterno.
Porque a vida não pode esperar. Porque, diante da violência, nossa fé não pode permanecer silenciosa. A vida em primeiro lugar - hoje, amanhã e sempre.
Livramento de Nossa Senhora, BA
Cáritas Diocesana
Irmã Maria Necilda Firmino dos Santos
Educadora Maria José de Sousa Pereira
Dom Vicente de Paula Ferreira





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