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COMUNIDADE QUILOMBOLA DA BOCAINA AVANÇA NA CONSTRUÇÃO DO PROTOCOLO COMUNITÁRIO DE CONSULTA

há 11 minutos
3 min de leitura

Também denominados protocolos autônomos, os documentos são construídos pelas próprias comunidades para estabelecer como desejam ser consultadas diante de decisões que possam afetar seus territórios e modos de vida.


A Comunidade Quilombola da Bocaina, no município de Piatã, realizou no domingo (13) mais uma oficina do processo de construção do seu Protocolo Comunitário de Consulta. A atividade reuniu moradores, lideranças comunitárias e representantes da Cáritas Dicesana de Livramento de Nossa Senhora, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), representado por Ione Rochael, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Rui Barbosa, representada por Cláudio Dourado, para discutir, de forma coletiva, como a comunidade deseja ser consultada antes de decisões, projetos ou empreendimentos que possam impactar seu território, seus modos de vida e seus direitos.


O encontro faz parte de um processo conduzido pela própria comunidade e tem como objetivo registrar, em um documento construído coletivamente, as formas de organização, participação e tomada de decisão da Bocaina. O protocolo é um instrumento relacionado ao direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.


Durante a oficina, os participantes refletiram sobre a organização da comunidade, seus espaços de participação e os caminhos que devem ser percorridos quando decisões externas podem afetar o território. A metodologia foi construída a partir de rodas de conversa e mesas temáticas, permitindo que diferentes grupos contribuíssem para a elaboração das bases do protocolo.


Segundo Alfredo Baleeiro, assessor da Cáritas Regional Nordeste 3, o protocolo comunitário é mais do que um documento final.

"O protocolo comunitário de consulta é uma experiência construída por diversas comunidades tradicionais como forma de apresentar quais são as suas regras de consulta. Ele reafirma o direito das comunidades de serem ouvidas e participarem dos processos que possam interferir em seus territórios e modos de vida."

Alfredo explica que a legitimidade do protocolo depende justamente de sua construção coletiva.

“Somente a comunidade pode construir esse documento. O protocolo também é um processo de organização e formação, porque a comunidade reflete sobre sua história, sua cultura, suas formas de viver, trabalhar e tomar decisões.”

Para Catarina Silva, presidente da Associação da Comunidade Quilombola da Bocaina, a construção do protocolo representa uma forma de fortalecer a participação da comunidade diante de decisões externas.

“São inúmeros desafios, porque muitas decisões externas chegam às comunidades sem o propósito de respeito para com quem já está ali. A comunidade tem o direito de saber tudo a respeito do que vai impactar suas vidas e, inclusive, de não aceitar. Se está na lei, precisamos fazer a lei valer.”

O protocolo busca estabelecer como a comunidade quer receber informações, quais espaços coletivos devem participar das discussões e quais procedimentos precisam ser respeitados antes de processos de consulta sobre ações que possam afetar o território quilombola.



UM PROCESSO CONSTRUÍDO EM ETAPAS


A oficina realizada na Bocaina integra uma sequência de encontros voltados à construção do protocolo. O processo começou com uma assembleia de apresentação sobre o direito à consulta e a Convenção 169 da OIT. Em seguida, a comunidade realizou oficinas dedicadas à sua história, memória e identidade, chegando agora às discussões sobre organização comunitária e regras para os processos de consulta.


As próximas etapas incluem novas oficinas temáticas, a sistematização das contribuições construídas pela comunidade e uma assembleia final para aprovação do documento. Após essa aprovação coletiva, o protocolo será organizado em sua versão definitiva, com as etapas técnicas de diagramação e impressão, antes de ser apresentado publicamente.


Ao construir seu próprio Protocolo Comunitário de Consulta, a Comunidade Quilombola da Bocaina define coletivamente as formas pelas quais deseja participar de decisões que possam envolver seu território, sua cultura e seus modos de vida.


Fotos: Tainara Assunção.



 
 
 

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