Solenidade da Natividade de São João Batista

“João é o seu nome” (Lc 1,63)


Leituras:
    Is 49,1-6
    Salmo 138
    At 13,22-26
    Lc 1,57-66.80

Uma das primeiras preocupações de um casal quando nasce um filho é a escolha do nome. O nome possui algum significado especial, como homenagear algum santo, um antepassado da família, um artista ou ainda um jogador de futebol. Várias são as motivações. O que nos impressiona no nascimento que hoje celebramos não é a novidade do nome – “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” (Lc 1,61 – mas a força do seu significado. A novidade é que o nome carrega consigo a missão que a pessoa assume. João é aquele que anuncia a misericórdia de Deus. João significa “o Senhor é misericórdia” ou “o Senhor é favorável”.

No nascimento de João se confirma a potência de Deus que tarda, mas nunca falha. Quem imaginaria que um casal de idosos pudesse experimentar a alegria da chegada de um filho? Os nomes dos pais de João explicam esse acontecimento extraordinário. Zacarias quer dizer “O Senhor se recorda” e Isabel, “O Senhor jurou”. Assim, porque o Senhor se recorda daquilo que prometeu, João veio ao mundo para “preparar os caminhos do Senhor” (LC 3,4) e não somente anunciar que Jesus é o Salvador, mas mostrar que Ele está presente no mundo.

A chegada de João marca o início de um novo tempo. Tempo de alegria e de esperança por causa do Messias esperado que ele testemunha. Ainda no ventre de sua mãe ele já tinha experimentado a alegria do Espírito, quando Maria, grávida de Jesus, tinha ido ao encontro de sua parenta Isabel (Lc 1,39-45). A vocação de João é marcadamente profética porque Deus o escolheu já no ventre materno (Lc 1,11-17). Semelhante ao Servo do Senhor, identificado como o grupo dos fiéis de Israel (1ª leitura) como instrumento efetivo enviado por Deus (Jo 1,66), João é enviado para “preparar para o Senhor um povo bem disposto” (Lc 1,17).
   
Dar testemunho de Jesus é elemento central da vida de João, por isso ele insiste na mudança de vida, a fim de que as pessoas se preparem para acolher aquele que é a Vida. Consciente da misericórdia de Deus, João se empenha em uma vida de humildade e despojamento, manifestando a fidelidade através de uma vida reta, focada no essencial. Novamente recordamos o servo da primeira leitura. Ele não mede a extensão dos planos de Deus por meio de realizações humanas, ou mesmo busca glória para si mesmo. Tal como o servo – “luz das nações” (Is 49,6) –, João testemunha a luz para todos porque reconhece Jesus como aquele que perdoa os pecados do mundo e não apenas os de Israel.
   
Como João é fiel ao seu nome... Ele é o maior de todos os profetas de Israel porque não só falou do Messias, mas mostrou onde Ele estava. Diferentemente dos outros profetas, ele foi capaz de indicar o conteúdo da sua profecia – “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29) – porque reconheceu na pessoa de Jesus de Nazaré o Ungido de Deus. Porque identificou em Jesus a chegada do Cristo, João tem consciência do que faz. “Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual eu nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13,25; Jo 1,27) (2ª leitura). Ele anuncia o batismo de arrependimento como oportunidade de transformação para acolher o Messias Salvador.

Portanto, a missão de João é repleta de misericórdia. Ele vincula a salvação à realidade de cada pessoa, não pede nada acima do que se possa fazer. É uma questão de consciência, de fidelidade, de misericórdia. Quando pensamos na vocação cristã que recebemos no Batismo, recordamos nossa participação na missão salvífica de Deus em Cristo no Espírito Santo. A partir do momento que assumimos o estilo de vida evangélico, somos chamados a viver o que Evangelho nos propõe, não apenas por nossos méritos, mas na graça daquele que nos conhece desde dentro (Salmo 138,14c).

Empenhados pelo projeto diocesano de evangelização – Ser Igreja missionária a serviço do Evangelho – que nos desperta para uma transformação da mentalidade acerca da missão, olhamos para a figura de São João, tão querido e celebrado em nossas comunidades, e pensamos não apenas num ‘batizador’, mas numa boa inspiração para nossa renovação missionária. Que a missão não seja apenas a realização de muitas atividades pastorais, mas a abertura para um novo estilo de vida, bem mais próximo de Jesus que evangelizou vivendo. Como João, cujo nascimento celebramos, saibamos reconhecer a presença decisiva do Senhor nos acontecimentos da vida, ocupar-nos daquilo que é essencial, acolher com abertura e alegria a misericórdia de Deus e testemunhar Jesus para os outros.

Marcos Bento
4º – Teologia