42. A BÊNÇÃO - II

O povo, sobretudo entre os mais simples e fiéis à tradição, costumam pedir e dar a bênção. O filho a pede ao pai; os fiéis ao padre (também mais novo); as crianças aos mais velhos. Bênção, pai; bênção, padre! Não dar ou não pedir a bênção, revela que nas relações têm algo não correndo bem. É verdade, este hábito passa por uma crise em vários lugares. O clima cultural em que vivemos, está, aos poucos, corroendo essas tradições com grande desconforto dos mais velhos que veem hábitos recebidos de longo passado sendo jogados com superficialidade ou tachados de caretas.
Como a tradição bíblica documentou, a origem e fundamento da bênção expressam valores religiosos profundos. Num mundo pós-cristão e agnóstico que vem tomando conta da nossa época, eis que as expressões religiosas, até as mais simples e familiares, passam por esta onda de contestação ou, pior, de irrisão. Por isso, eis a necessidade de compreender melhor para viver de maneira mais profunda gestos e expressões que podem estar perdendo suas motivações.
Antes de tudo, é claro que somente Deus pode bendizer, Ele é a nascente de toda bênção. Por isso, só a partir de uma séria e profunda experiência de Deus, pode-se recuperar o sentido da bênção. Nietzsche afirmava: “De súplices devemos nos tornar bendizentes”. Não discutimos o sentido da frase dado pelo filósofo. O ser humano é somente ‘súplice’; só Deus, o Senhor da vida, pode bendizer! Porém, o ser humano recebe de Deus este poder. Os pais, sobretudo pelo ministério recebido com o Matrimônio, têm este poder; os sacerdotes, pela consagração ministerial, são investidos por esta graça; todo batizado – crismado, também, possui a força divina que é chamado a partilhar com os demais, cada qual segundo o dom de graça que recebeu.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2626) escreve: “A bênção exprime o movimento de fundo da oração; é o encontro de Deus e do homem; nela o dom de Deus e a acolhida do homem se chamam e se unem. A oração de bênção é a resposta do homem aos dons de Deus: uma vez que Deus abençoa, o coração do homem pode bendizer aquele que é a fonte de toda bênção”.
 A Igreja possui um Ritual de bênçãos (1984) que orienta a respeito do sentido das bênçãos e proporciona expressões para realizá-las. Encontramos bênçãos de pessoas (ex. das famílias, de enfermos, antes e depois do parto, de noivos etc.); bênção de lugares (ex. da nova residência, novo hospital, escritório, fábrica, plantações, campos etc.); coisas (instrumentos de trabalho, bebidas e alimentos, terço de Nossa Senhora, escapulário etc.). O Ritual recomenda que cada bênção deve começar com a escuta da Palavra, para dar sentido aos gestos e não cair na magia ou num ritualismo vazio. Na liturgia, ainda, encontramos tantas expressões de bênçãos. “Duas formas fundamentais exprimem esse movimento da bênção: algumas vezes ela sobe, levada no Espírito Santo por Cristo ao Pai (nós o bendizemos por nos ter abençoado); outras vezes ela implora a graça do Espírito Santo, que, por Cristo, desce de junto do Pai (é ele que nos abençoa)”  (CIC, 2617).
Observamos que nas bênçãos destaque especial têm as mãos. Essas se pousam sobre a cabeça na ordem como na Penitência, na Crisma como invocando o divino Espírito na Eucaristia; a mão traça o sinal da cruz na fronte ou na pessoa como gesto que invoca a efusão da plenitude da vida divina. A mão aberta é gesto para doar, acolher, partilhar...
Entre todas as bênçãos, especial realce tem a com o Santíssimo Sacramento, com o Corpo do Senhor: deve ser vivida e acolhida em atitude de profunda oração e adoração.
Dom Armando