PAIXÃO E MORTE DE JESUS DE NAZARÉ, O CRISTO

Leituras

Is 52,13 - 53,12
Sl 31 (30)
Hb 4,14-16; 5,7-9
Jo 18,1 - 19,42

Mais uma vez é chegada a Semana Santa, a semana das semanas para nós cristãos. Nela nós revivemos os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que significam muito para nossa vida de fé.

Qual sentido tem para nós celebrarmos a SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO? Um tanto de elementos se nos apresentam para fazermos uma série de reflexões. Primeiro: aconteceu um processo de julgamento de um homem que, injustamente, foi condenado; Segundo: sua postura e suas palavras nos ensinam muito nos seus últimos momentos; Terceiro: a sua morte foi o seu último gesto e abraço de amor à humanidade.

O julgamento de Jesus foi por dois motivos básicos: político e religioso. Político porque Pilatos temia que o povo o coroasse rei, e isto contrariaria a César, o imperador de Roma; Religioso, porque na concepção dos judeus religiosos Jesus havia proferido uma blasfêmia se denominando filho de Deus, fazendo-se igual a Ele. Estas prerrogativas nos mostram a força dos interesses que dominam a sociedade em todos os tempos. Isto nos faz compreender que a razão, que tenta pelo raciocínio nos aproximar da verdade como instrumento da lucidez humana, perde a sua validade em detrimento dos interesses. O que prevalece ao final não será tanto a razão, e nem tanto a verdade, mas o que os interesses determinam.

Nesse julgamento somos capazes de perceber uma série de coisas. “Jesus estava consciente de tudo o que ia acontecer”. Pede que poupem os seus amigos. Pedro reage violentamente puxando a espada e ferindo um soldado. Jesus o repreende porque tinha consciência de que não se pode combater uma violência com outra violência. Apesar de ter escolhido discípulos de sua plena confiança, compreende que a fragilidade humana acaba sendo maior do que o desejo de ser fiel. Sente que Pedro, apesar da promessa de fidelidade, o nega por diversas vezes.

Diante da pressão das autoridades Jesus apela para o bom senso das mesmas e pede para inquirir o povo sobre o que ele tinha feito e ensinado. Tem consciência que não disse nada às ocultas, mas às claras. Não tinha nada a esconder.
Jesus nota a hipocrisia daqueles que, sendo religiosos, preocupam com as exterioridades, com os rituais externos e teatrais, e não com a conversão profunda do coração. “Os mesmos não entram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa (Jo 18,28)”. Entretanto, essa mesma gente não tem nenhum escrúpulo em torturar e matar uma pessoa inocente. Jesus denuncia uma vida religiosa de aparências. Ao lado da hipocrisia religiosa o texto de João nos faz entender também a hipocrisia daquele que detém o poder temporal: Pilatos. Este com uma desfaçatez tamanha chega a afirmar que não encontrou nenhum crime em Jesus. Venhamos e convenhamos: como entregar alguém para ser torturado e morto se tem certeza que a pessoa é inocente? No mínimo, isso é questionável e demonstra a total frieza ou má vontade em livrar essa pessoa de uma pena de morte. No fundo Pilatos não queria contrariar a multidão corrompida pelos chefes dos judeus e tampouco ver o seu nome desgastado diante do Império Romano. Faz-se uma bela figura.

Vale salientar nesse enredo que se desenrola no julgamento de Jesus, a sua nobre autonomia que se demonstra do início ao fim da narração destes acontecimentos. Ele tem consciência que seu reino não é deste mundo, que veio para dar testemunha da verdade, que os que são da verdade são capazes de escutá-lo, que diante da ignorância dos homens não vale a pena argumentar, mas oferecer o silêncio eloquente e ao fim, que ele não morre, mas entrega o espírito, dá a vida. Jesus nesta narrativa joanina é altamente soberano, sem contudo ser arrogante em nenhum momento. 

A paixão e morte de Jesus foi e é um fato que continua a nos questionar até os dias atuais. Como matar um homem que nunca fez mal algum, e sofrer as torturas próprias dos malfeitores?! Como o ser humano pode ser tão injusto assim com alguém que ensina e promove a paz?! Como é possível a maldade humana saltar fora do seu coração e se materializar em atos tão monstruosos?! A morte de Jesus nos faz entender que a disposição para a verdade é uma prerrogativa não para todos. E diante da pergunta: “Para que mataram Jesus?” Resta-nos apenas e tão somente a simples resposta: “O mataram para calar a sua boca”. Morto não fala mais, não incomoda mais ninguém. Esqueceram, porém, que as ideias e ideais de um homem não morrem com o seu corpo, mas mantém-se vivos e ressuscitam no coração daqueles que os abraçaram como verdade despretensiosa. Porque, em resumo, Jesus morreu exclusivamente por amor, e isto foi tudo para convencer os que o amaram e o amamos.

Pe. Nicivaldo