QUARTA-FEIRA DE CINZAS

QUARESMA: TEMPO DE CONVERSÃO 

Leituras:

Jl 2, 12-18
Sl 50(51)
2 Cor 5, 20- 6, 2
Mt 6, 1-6.16-18

Com a Quarta-Feira de Cinzas damos início ao tempo litúrgico da quaresma. É um dos tempos mais fortes da nossa Igreja porque nos propõe uma preparação espiritual fecunda para olharmos para dentro de nós mesmos, buscarmos as mudanças necessárias e caminharmos em direção à Páscoa, festa mais importante da nossa fé cristã.

Quaresma significa um tempo de 40 dias, mais precisamente, um tempo suficiente e oportuno para a renovação da nossa própria vida. Na Bíblia são vários momentos em que o número 40 aparece. É, pois, um número carregado de bastante significado. Jesus permaneceu 40 dias no deserto preparando a sua inserção na vida pública para cumprir a sua missão. Como cristãos somos, igualmente, convidados a nos prepararmos para a realização da nossa missão.

O tempo quaresmal nos convida a uma mudança de vida, dos nossos hábitos cotidianos, no nosso modo de ser. Sabemos, por experiência, que mudar-se não é nada fácil. Toda mudança implica empreendimento de esforços e prática de exercícios para que, de fato, a mudança ocorra. O Mestre nos ensina que precisamos do exercício verdadeiro da CARIDADE, DA ORAÇÃO E DO JEJUM. Esses exercícios devem ser verdadeiros e devem partir da essência do nosso ser para combater o egoísmo, raiz de todos os pecados. Eles não devem ser superficiais e feitos para serem mostrados, mas antes de tudo para mostrar-se a si mesmo em vista do bem dos irmãos.

No evangelho de hoje, Jesus ao falar desses exercícios, denuncia a hipocrisia, própria daqueles que são egoístas e que querem mostrar o que não são. Diz claramente: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles (Mt 6, 1a)”. Com isso deixa claro que há uma diferença entre a Justiça propriamente dita e a “justiça particular”. Esta última tem como medida “si mesmo”. Quando nós nos tornamos a medida da Justiça significa que já é uma injustiça, porque a sua finalidade é o interesse próprio e não o da coletividade.

O evangelho deste dia, juntamente com o tempo quaresmal faz um convite imperioso a uma re-avaliação da própria vida, sobretudo nessas dimensões apontadas por Jesus. Cada um deve repensar sobre a caridade que está ou não praticando. Recuso acreditar que um cristão que não faça caridade seja um verdadeiro cristão; repensar também sobre a vida de oração: o que eu rezo? Como rezo? A qual “deus” eu rezo? A quem se destina a minha oração? Minha oração é profunda ou rasa?; por fim, sobre o jejum, isto é, sobre as renúncias que fazemos ou deixamos de fazer. Num mundo que promete, sempre mais, a felicidade através das coisas que o mercado nos oferece, qual tem sido nossa disposição em renunciar daquilo que possuímos ou podemos possuir? A renúncia implica autocontrole em relação as tentações do ter. Muitos pensam que “tendo mais” também acabam “sendo mais”. Nunca é demais lembrar que o nosso SER, não passa pelo nosso TER.

A Quarta-Feira de Cinzas, por si mesma, é um convite forte à reflexão sobre o que somos. Ela lembra que somos “pó”, e “cinzas” nos tornaremos. Portanto, eis o que somos. Assim não custa parar para pensar que a humildade deve ser a porta-bandeira da essência/existência. Abandonar o orgulho deve ser a nossa meta cotidiana, para podermos nos sentir mais próximos e irmãos dos nossos irmãos, verdadeiramente.

Queremos lembrar que hoje, a Igreja do Brasil dá início a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e superação da violência” e com o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Este é um tema muito oportuno, principalmente por falar de um dos problemas mais graves da nossa sociedade. A Igreja profeticamente, corajosamente se debruça sobre temas difíceis da nossa realidade brasileira, convidando aos cristãos e não cristãos para refletir e buscar medidas que possam combater e amenizar essa úlcera, este câncer da nossa sociedade. No último ano foi-nos apresentado o balanço da criminalidade no Brasil. Foram mortas mais de 65 mil pessoas. Isto é um assombro. Vivemos exatamente um estado de guerra. Infelizmente as vítimas são os nossos jovens, pobres e negros em sua maioria. Constitui-se um verdadeiro extermínio da nossa juventude. Como cristãos não podemos fechar os nossos olhos para esta triste realidade.

Celebrar uma verdadeira Quaresma em vista da vitória de Cristo sobre a morte, uma mudança verdadeira do nosso ser interior se faz necessária. Escutemos a profecia de Joel: “Agora diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração e não as vestes, e voltai para o Senhor Deus... (Jl 2, 12)”. 

Pe. Nicivaldo
Pároco de Ibitiara