2° Domingo da Quaresma - Ano B


Leituras:
Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Salmo 115
Rm 8, 31b-34
Mc 9,2-10
 

“Escutai o que Ele diz!” (Mc 9,7)

Interpelados pelo ardente desejo de arrependimento, conversão e mudança de vida, para abraçar a vida nova em Cristo, chegamos ao 2º domingo da Quaresma. Preparando-nos para a vivência do mistério pascal acolhamos a Palavra de Deus, reconhecendo na arte da escuta a abertura para revigorar nossa fé em Cristo. No episódio da Transfiguração do Senhor (Mc 9,2-10) experimentamos uma antecipação da glória da ressurreição, ao passo que assumimos uma vida operativa na presença de Deus, acolhendo a mensagem de Jesus no caminho da cruz e percebendo os aspectos da sua Pessoa em nossa existência.

Pela revelação divina, Jesus é apresentado aos três discípulos (Pedro, Tiago e João) como o Filho amado esplendente de luz. Isso, porém, não se limita ao Seu aspecto glorioso porque o verdadeiro Messias só é conhecido através da paixão e morte. Além disso, a glória não elimina a condição humana de Jesus. Desse modo, a novidade da existência cristã e da acolhida do Reino de Deus, na lógica do evangelista Marcos, possibilita-nos compreender que a transfiguração precede a Cruz e a Ressurreição, para mostrar que a vinda do Reino não é uma realidade exclusivamente posterior, mas já está dentro da existência.

A partir da experiência inspiradora feita pelos três apóstolos, os mesmos que testemunham a ação de Jesus em momentos particularmente importantes como a ressurreição da Filha de Jairo (Mc 5,40) e a oração de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33), somos convocados para a experiência da escuta. A voz que ecoa da nuvem confirma a certeza da nossa fé: “Este é o meu filho amado. Escutai o que Ele diz” (Mc 9,7). Escutar não é somente ouvir, mas comprometer-se a colocar em prática o que foi dito. Quando Jesus nos pede para amar, perdoar, acolher, visitar ou evangelizar, nossa resposta precisa ser concreta. Caso contrário, não seremos discípulos e discípulas Dele.

No alto da montanha – biblicamente, o lugar da manifestação divina, onde o ser humano entra em intimidade com Deus – os apóstolos contemplam Jesus na sua forma resplandecente de glória. Impelidos pelo Evangelho não podemos viver na lógica consumista cercada de prazer e euforia, reduzindo a vida às realizações pessoal e profissional. Deixemos que nossa vida se projete segundo a vontade de Deus.

É para esta vida que Jesus se transfigura, numa perfeita metamorfose, a ponto de assumir a brancura como sinal claro da luz de Deus. A cor branca recorda a presença divina e nos faz compreender o quanto a entrega de Jesus faz parte do plano salvífico de Deus.  Mas isso não retira o sofrimento. Aliás, Elias e Moisés aparecem para recordar o que as profecias e a Lei declaram sobre o Messias. Elias é o profeta precedente ao Dia do Senhor (Ml 3,22-24) e Moisés é o modelo de profeta, conforme Deus prometera em Dt 18,15.

Além disso, o testemunho de Abraão evidencia a confiança incondicional em Deus. Abraão abre mão do controle de sua vida para recebê-la como graça. No sacrifício de Isaac, sabe escutar a voz de Deus, permite que Sua mensagem ressoe na concretude da vida; por isso, Deus não o abandona. Se Abraão se manteve firme por sua fé, quanto mais Deus na sua promessa, cujo amor é inesgotável (Rm 8, 31b-34)? O mistério da cruz é prefigurado na primeira leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18). Jesus, descendente de Abraão segundo a carne, no sacrifício da cruz garante a salvação ao mundo inteiro, cumprindo a promessa feita por Deus a Abraão – “Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedecestes” (Gn 22,18).

E nós, estamos dispostos a escutar a voz de Deus como Moisés? “Precisamos nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade” (Papa Francisco). Em nossas comunidades eclesiais escutamos com atenção o Evangelho, nossos pastores, nossos agentes de pastorais e todos que querem falar?

Que ao guardar na memória a experiência da transfiguração e a prova de fé de Abraão, saibamos escutar com qualidade e reconhecer que a voz de Deus implica acolher a realidade da cruz. Sem cruz não há glória; sem escuta não há diálogo. Portanto, sejamos obedientes a voz do Senhor. Escutá-Lo dá novo vigor à nossa fé.

Marcos Bento
4º Teologia