32. RITO DA PAZ - II

A respeito do “significado ritual do dom da paz na missa”, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramento, no dia 08 de junho de 2014, na solenidade de Pentecostes, publicou uma Carta Circular. Nela, afirma-se que “se viu conveniente conservar na liturgia romana o rito da paz em seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano”. Desse modo, se mantém o rito da paz ao interno do Rito da Comunhão.
A Carta (n. 6), junto com as “reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese a respeito “do sentido da saudação da paz e do modo como realizá-la”, submete as suas “sugestões práticas” à “prudente consideração das Conferências dos Bispos”; isto para “expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembleia litúrgica antes da Comunhão” (n. 5).
Acredito ser importante considerar essa recomendação da Congregação romana, sem perder a espontaneidade do gesto segundo a sensibilidade cultural de cada comunidade celebrante. Em toda expressão litúrgica, cada rito deve ser realizado com autenticidade e profundidade interior. Existe o perigo de esvaziar os gestos litúrgicos ou repeti-los como rotina, sem aquela dimensão espiritual que dê a cada gesto o seu sentido verdadeiro.
A Carta aconselha que por “ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz” (6,b).  Mas, além do modo de expressar o rito, o que mais conta é “compreender e viver, nos gestos rituais, o significado correto do rito da paz”; caso contrário, “debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia” (n. 6).
A Carta insiste na originalidade da saudação litúrgica da paz e destaca a diferença com as saudações humanas e  recomenda que, “no momento de dar-se a paz se evitem alguns abusos” (6.c).
Enfim, a Carta da Congregação convida “as Conferências dos Bispos a preparar catequeses litúrgicas sobre o significado do rito da paz e seu correto desenvolvimento na celebração da Santa Missa” (6.d). Tais catequeses deveriam possuir um caráter mistagógico, procurando destacar “o significado do rito” e a maneira de realizá-lo, bem como “a íntima relação entre lex orandi e lex credendi” que “deve obviamente estender-se à lex vivendi”, isto é, o orar e o crer devem ser testemunhados numa vida coerente (n.7).  Escreve:
“Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que dele depende a qualidade de nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz (cf. Mt 5,9ss)”.
Serafim de Sarov (1759-1833), um starets (mestre espiritual) russo do século 18º, observava: “Este gesto não serve somente para refazer a paz com o nosso irmão, mas a reencontrar em nós mesmos a paz do coração”.
Dom Armando