33° Domingo do Tempo Comum - Ano A

Leituras:

Pr 31,10-13.19-20.30-31
Sl 127,1-2.3.4-5 (R. 1a)
1Ts 5,1-6
Mt 25,14-30

“Felizes os que temem o Senhor e trilham 
seus caminhos” (Sl 127, 1). 

A liturgia destes últimos domingos do tempo comum fazem transição para o tempo do Advento. Recordam a espera dos bens prometidos por Jesus como uma realidade que exige de nós uma preparação adequada. Desde já, pela vigilância e diligência, caminhamos para a alegria da presença definitiva do Senhor.

Na parábola das virgens, lida no domingo passado, o noivo demorava para chegar. Também na parábola dos talentos o proprietário fica muito tempo fora e volta de surpresa. Para os primeiros cristãos, que fazem a experiência da “demora da parusia” (a volta de Jesus), isso significa que devem trabalhar com os bens que receberam de Jesus e não enterrá-los. Não para “merecer o céu”, mas para assumir a causa do Senhor (com seu Reino), por amor a Ele. A recompensa deste serviço fiel é Deus mesmo, a alegria de sua presença.

A primeira leitura, do livro dos Provérbios, apresenta o louvor da mulher temente a Deus, que encarna na sua vida justa e dedicada as qualidades da sabedoria. Ela encarna a generosidade e providência de Deus. Esta mulher dos provérbios e o homem do salmo vivenciam o que Jesus requer de seus seguidores, um amor zeloso (temor) que se empenha pela causa do Senhor.

Na segunda leitura, Paulo nos faz refletir que não a hora, mas o fato é que importa; ou seja, a realidade da Parusia, da presença de Cristo, deve marcar a nossa vida toda, desde já. Vivamos na sua presença, à sua luz. Então, o “Dia” não virá sobre nós como um ladrão de noite; a hora já não tem importância.

No evangelho o acento principal não está na diversidade dos talentos, dos dons, mas no valor decisivo do serviço empenhado. A iminência do último dia é descrita muito mais em termos de luz do que de ameaça. Viver hoje o “Dia do Senhor” é deixar-se iluminar pelo Cristo que vem para que saibamos que a responsabilidade cristã é consciência do dom recebido e fidelidade a ele. Ou seja, mais radicalmente, fidelidade ao Dador.

Segundo Ireneu de Lião, o dinheiro confiado pelo patrão aos seus servos significa o dom da vida concedido por Deus aos homens. Dom que é também tarefa e que pede para não ser desperdiçado ou ignorado ou desprezado, mas acolhido com gratidão ativa e responsável. Poderemos acrescentar que não só aquilo que temos, mas também o que somos é dom de Deus. Nós somos dom.

Sob esta luz, há um aspecto do juízo que recai sobre quem não fez frutificar os talentos recebidos e que não tem a ver acima de tudo com a perspectiva escatológica (cf. Mt 25,30), mas já, aqui e agora, com o risco de desperdiçar a vida, de não a viver, de a estragar “até fazer dela algo de estranho e sem graça”. É o risco de uma vida insignificante, de uma vida não vivida.

O homem da parábola representa Jesus, os servos somos nós e os talentos são o patrimônio que o Senhor confia a nós. Qual é o patrimônio? A sua Palavra, a Eucaristia, a fé no Pai celeste, o seu perdão… em resumo, tantas coisas, os seus bens mais preciosos. Este é o patrimônio que Ele nos confia. Não somente para ser protegido, mas para crescer! Enquanto no uso comum o termo “talento” indica uma qualidade individual – por exemplo talento na música, no esporte, etc., na parábola os talentos representam os bens dos Senhor, que Ele nos confia para que o façamos dar frutos. O buraco cavado no terreno pelo “servo mau e preguiçoso” (v. 26) indica o medo do risco que bloqueia a criatividade e a fecundidade do amor. Porque o medo dos riscos do amor nos bloqueia. Jesus não nos pede para conservar a sua graça em um cofre! Jesus não nos pede isso, mas quer que a usemos em benefício dos outros. Todos os bens que nós recebemos são para dá-los aos outros, e assim crescem.

Investir o dinheiro recebido significa expor-se ao risco de perdas que deveriam depois ser reembolsadas ao patrão: o medo do servo, que o paralisou, é também medo do risco. E, sendo evidente que esta parábola não pretende ensinar o que fazer do dinheiro e não pode ser usada para uma apologia de um sistema econômico que absolutize o lucro, o certo é que o medo de eventuais perdas é entendido como medo da vida, o qual se deve a uma imagem distorcida de Deus. O desejo de segurança, o medo de empenhar-se, o temor do juízo dos outros, neutralizaram neste homem a vontade de Deus que era de que ele procurasse um ganho (cf. Mt 25,27) com o dinheiro recebido: e esse procurar um ganho também teria significado ele viver, trabalhar, arriscar, alegrar-se e sofrer, em suma, dar sentido à sua existência.

Cada um de nós tem recebido do Senhor pelo menos 1 dom que precisa ser usado para o bem comum. Deus confia em nós. Ele se tornou dependente da honestidade, da lealdade e da fidelidade para com os bens que Dele recebemos. Deus arrisca nos também devemos nos arriscar por ele. Nós precisamos trabalhar de forma diligente com os dons recebidos, pois seremos considerados responsáveis pelo Senhor quando Ele retornar.

E nós, o que fazemos?  Quem ‘contagiamos’ com a nossa fé? Quantas pessoas encorajamos com a nossa esperança? Quanto amor partilhamos com o nosso próximo? São perguntas que nos farão bem. Qualquer ambiente, mesmo o mais distante e impraticável, pode se tornar lugar onde fazer frutificar os talentos. Não há situações ou lugares incompatíveis com a presença e o testemunho cristão. O testemunho que Jesus nos pede não é fechado, é aberto, depende de nós.

Esta parábola nos exorta a não esconder a nossa fé e a nossa pertença a Cristo, a não enterrar a Palavra do Evangelho, mas a fazê-la circular na nossa vida, nas relações, nas situações concretas, como força que coloca em crise, que purifica, que renova. Assim também o perdão, que o Senhor nos dá especialmente no Sacramento da Reconciliação: não o tenhamos fechado em nós mesmos, mas deixemos que desencadeie a sua força, que faça cair muros que o nosso egoísmo levantou, que nos faça dar o primeiro passo nas relações bloqueadas, retomar o diálogo onde não há mais comunicação.

Deus confia em nós, Deus tem esperança em nós! E isto é o mesmo para todos. Não o desiludamos! Não nos deixemos enganar pelo medo, mas vamos retribuir confiança com confiança! A Virgem Maria encarna esta atitude no modo mais belo e mais pleno. Ela recebeu e acolheu o dom mais sublime, Jesus em pessoa, e à sua volta O ofereceu à humanidade com coração generoso. A ela peçamos para nos ajudar a sermos “servos bons e fiéis” para participar “da alegria do nosso Senhor”.

Adriano Bonfim Pereira 
4º ano de teologia