SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Leituras:
Ap 11, 19; 12,1.3.10;
Sl 45/44;
1 Cor 15,20-27;
Lc 1,39-56. 

Na Liturgia da Solenidade de Nossa Senhora Assunta, gostaria destacar alguns pontos, que considero importantes para nossa reflexão:
1.    Maria é “a Mãe da Igreja evangelizadora e, sem Ela, não podemos compreender de maneira adequada o espírito da nova evangelização” (EG 284). Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu! Com essas palavras, Isabel cumprimenta Maria em sua visitação. Maria é feliz, antes de tudo, porque acreditou. Em que Maria acreditou? Podemos dizer que a vida toda de Maria passou sustentada pela fé. Como é possível? pergunta-se desde o início; será que é Deus mesmo que está me chamando? O que Ele quer de mim? E, eu terei força suficiente para viver à altura do seu pedido?
À luz da palavra, perguntemo-nos: em que consiste a fé, e como vivê-la em nossa vida de cristãos, isto é, de discípulos/as do Senhor Jesus?
O essencial da fé, é acreditar que Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram... até destruir o último inimigo, a morte (II leitura). Maria acreditou que um raio de luz estava entrando na história da humanidade; Ela o acolheu e se prontificou a servir nesse projeto de Deus; Eu sou a serva do Senhor, disse com prontidão e total disponibilidade. Ela abre caminho para uma vida que não se esgota no provisório do tempo que vivemos. Acredita que a esperança não ilumina só o tempo presente, mas abre para a eternidade.
2.    A realidade cultural, social, econômica e política em que vivemos, fecha o horizonte nos estreitos limites do mundo presente. Até a religião é reduzida a mercadoria, a busca por curas e milagres e Deus é procurado como ‘tapa-buracos’ das humanas deficiências; nesse contexto, a oração se torna pedido para que Deus faça a humana vontade, ou se torna uma superficial emoção. Vivemos bombardeados por tantas mensagens que banalizam a vida, os sentimentos, a sexualidade, a família e as relações humanas, em geral. Disso provêm o descaso com o bem comum, a busca do aparecer e do se impor sobre os outros, vistos como concorrentes ou inimigos e as tantas manifestações de violências. Disso, decorrem, ainda, a corrupção, as drogas, as numerosas mortes. Esse é o dragão do qual fala o texto de Apocalipse. Na história do texto bíblico, era o Império romano que matava a vida dos cristãos e roubava a esperança dos pequenos. Hoje, o império do mal continua ameaçando a vida dos verdadeiros seguidores de Cristo que não se submetem ao poder da Besta, isto é, do mundo, com suas ambíguas propostas.
Nessa realidade, porém, escreve o livro do Apocalipse, quem segue o Senhor Jesus, não deve desanimar. A Mulher, imagem da Igreja perseguida, deve, sim, fugir para o deserto, mas Ela consegue dar à luz o filho homem. É símbolo da esperança dos que seguem o Senhor, que não se deixam iludir pelas promessas do inimigo, que acreditam firmemente na salvação que vem do Alto, que mantêm viva a esperança, que leva à vitória sobre a morte, sobre qualquer morte que pode atingir a vida.
3.    Nessa experiência, a presença de Maria é luminosa. “Ela é a mulher da fé e caminha na fé” (EG, 287), e “a sua extraordinária peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a Igreja” (São João Paulo II, RM, 366)”.  Maria acreditou com uma fé que, várias vezes, passando pela noite, pela escuridão, pela fadiga do acreditar. Não foi uma fé sustentada sempre por anjos e entusiasmos. Um pouco como a nossa fé, que passa por momentos de cansaço, de provações e dúvidas.
Hoje, à luz desse bonito encontro, como irmão, gostaria que minhas palavras entrassem no coração de cada um/a: “Coragem! Avante! Caminhemos com renovado vigor e mais puro amor, numa fé renovada, revigorada pelo exemplo e a intercessão da nossa Mãe do Livramento. Esse livramento consiste numa geração. Sim, Maria gera em nós Jesus, e nos aproxima do Seu Jesus, e também da Igreja. De fato, não é possível um encontro verdadeiro com o Filho, sem a Igreja. Não temos Jesus sem a Igreja, sem os sacramentos da Igreja, sem a Palavra de Deus que na liturgia se torna mensagem viva, Palavra que ecoa como convite de conversão.
Com Maria e como Maria, então, cantaremos o canto da alegria e da libertação. Ela cantou, como em poderosa síntese da história da Salvação, que o Todo-poderoso fez grandes coisas na vida d’Ela e do seu povo, e continua, na vida da Igreja e de cada um de nós. Ele, mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. Que coragem e que consciência de fé para pronunciar semelhantes palavras! Para os seguidores de Jesus e os verdadeiros devotos de Maria, abrem horizontes para a empreitada da evangelização e para a responsabilidade na vida social, cultural e política. “N’Ela – escreve o papa Francisco - vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes” (EG 288).
4.    À luz desses ensinamentos, hoje, convido todos vocês, que chamo de irmãos e irmãs na fé, que continuemos com renovado empenho, no projeto da nova evangelização. Um renovado esforço peço, antes de tudo, aos meus primeiros e amados colaboradores, os padres: sejamos nós, antes de tudo e de todos, homens de fé viva, fé alimentada ao fogo da oração cotidiana, contemplativa, constante. Meu pedido se abre a todos: às religiosas e aos leigos e leigas que conosco partilham o serviço da evangelização: animadores e coordenadores de comunidades, de pastorais, movimentos. Ninguém esmoreça nesse compromisso de fé. Procuremos alimentar a esperança à escola da Palavra, seguindo o exemplo de Maria, na fidelidade às orientações da Igreja, também da Igreja diocesana. Tenhamos todos um novo e renovado vigor apostólico e missionário, com alegria e comunhão eclesial.
Dando os primeiros passos no segundo cinquentenário da Diocese, peço, com carinhosa insistência: sejamos firmes na fé que recebemos. Pais, com o exemplo e ensinamentos coerentes, procurem passar aos seus filhos a fé que receberam; Catequistas estejam à altura de atual evangelizar, procurando uma formação permanente, para iniciar na fé as novas gerações; Animadores/as e membros de Comunidades e Movimentos, caminhem com a Igreja local, com o bispo e as orientações que, ao longo destes anos oferecemos, para tornar a nossa Igreja mais fiel a Jesus.

Enfim, a festa de hoje, com suas belas leituras e orações, abre-nos à esperança de uma vida que não morre, que ultrapassa o limite da morte e acende, desde já, o desejo de vivermos em plenitude, fiéis à terra, isto é, à vida cotidiana, com seus deveres e empenhos; sem fechar mente e coração nas coisas da terra, mas abertos às coisas do alto, a fim de participarmos de sua glória (oração do dia).  Assim seja.
Armando Bucciol
(Homilia na festa de Nossa Senhora do Livramento)