17º Domingo Comum – Ano A

“Ele vai, vende todos os seus bens e compra...” (Mt 13,46b)

1ª Leitura - 1Rs 3,5.7-12
Salmo - Sl 118,57.72.76-77.127-128.129-130 (R.97a)
2ª Leitura - Rm 8,28-30
Evangelho - Mt 13,44-52

O que buscamos na vida? O que realmente nos interessa? Dinheiro? Poder? Controle sobre as outras pessoas? Aumento das visualizações nas postagens das redes sociais digitais? Estamos felizes com nossa existência? Ou será que ainda falta alguma coisa para alcançarmos a felicidade? O que realmente tem valor para nós? Deus? Família? Amigos? Emprego? Salário? A partir de perguntas que mexem com o nosso cotidiano, a Liturgia da Palavra de hoje na maneira como acolhemos e experimentamos a realidade do Reino de Deus em nossas vidas.

É com um espírito de busca e numa atitude de quem anseia por uma vida nova que somos lançados para uma reflexão profunda, desejando ressignificar nossa vida, de modo que nossas ações sejam transformadas. Ao invés de enxergarmos o supérfluo do mundo, Jesus nos mostra que precisamos ser atraídos pelo essencial, não nos fixando nas compras geradoras de um consumismo sem ética nem sentido social e ambiental, de prazeres momentâneos; mas nos desprendendo dos excessos para concentrar nossa vida naquilo que nos humaniza e, ao mesmo tempo, já nos permite experimentar aqui na terra o Reino dos Céus. Ora, mas o Reino de Deus é comparado, no Evangelho que ouvimos hoje (Mt 13,44-52), a um tesouro escondido (Mt 13,44) e a um comprador de pérolas preciosas (Mt 13,45-46), em pequenas parábolas que envolve vendas e compras. Acaso o Reino de Deus pode ser compreendido como uma mercadoria? Podemos comprá-lo como compramos um produto numa loja?

Distraídos pelo consumismo, corremos o risco de transformar a experiência de Deus numa relação comercial, como se a confirmação da nossa fé resultasse em prosperidade econômica, e o estímulo para maior intimidade com Deus dependesse do nosso bolso, não do nosso coração. Na verdade, enquanto o tesouro e a pérola formam encontrados, o Reino de Deus é revelado. O elemento comum não é a compra, mas a surpresa nos que encontraram bens valiosos e a nos que fazem a experiência do Reino como uma realidade preciosa. Nesse sentido, por trás da nossa busca por Deus está uma descoberta que exige uma reação. Qual a reação de quem afirma ter encontrado Jesus? No encontro autêntico com Jesus precisamos abrir mão de algumas coisas, porque uma realidade preciosa prevalece sobre todo o resto e motiva renúncias. Por isso, temos hoje uma insistência nas parábolas: “...vai, vende todos os seus bens...” (Mt 13,44.46).

Portanto, o diferencial é a resposta humana à oferta de Deus. Ou seja, nossa reação na descoberta do Reino, no atrativo divino que nos faz reconhecer o que Jesus comunicou com sua palavra e com suas obras. É esse o relevo que o Evangelho destaca, pois a justificativa para o investimento comprova a reação da pessoa ao descobrir um objeto precioso. Com efeito, a alegria de quem descobre o Reino de Deus é inconfundível e, consequentemente, aponta para uma vida nova, de renúncia de elementos provisórios para abraçar um bem permanente. A reação de quem encontrou um tesouro e a reação de quem encontrou uma pérola de grande valor confirmam o elemento inesperado, tão significativo que se repete nas duas parábolas: “...vende todos os seus bens...” (Mt 13,44.46). Trata-se de uma reação radical: o desprendimento.

E nós que seguimos Jesus Cristo, estamos nos esforçando para uma vida em conformidade com o Evangelho, reconhecendo no desprendimento uma abertura pessoal capaz de retirar os excessos para dar espaço ao que é mais importante? Não esqueçamos: “onde estiver o nosso tesouro, aí estará também o nosso coração” (Mt 6,21).

Em contrapartida, numa realidade consumista como a nossa, não é comum desfazer-se de tudo para adquirir o único. Isso é tão evidente que nossas buscas são movidas mais por interesses quantitativos. E a desconfiança é um grande empecilho para investimentos isolados. Naturalmente, o investimento que o Evangelho nos apresenta é especial. Vale a pena abandonar tudo para abrir-se ao futuro do Reino que vem ao nosso encontro, como dom. Seria uma reação estúpida abrir mão de tudo para possuir algo sem valor. Por isso, o Reino que vem requer uma escolha radical. Assim, quem ouve Jesus e se abre para a realidade do Reino que é, na verdade, atualizado na sua pregação, nos milagres realizados e nas relações por Ele estabelecidas, precisa tomar uma posição diferente. Em Jesus o Reino se manifesta; logo, não se trata de um lugar, mas quer dizer Deus mesmo, o seu Reinado sobre nós. Mas o que ainda nos impede de fazer uma escolha radical por Ele?

Não há dúvidas que precisamos constantemente nos libertar do supérfluo para nos comprometer com o Reino de Deus. É preciso saber perder para ganhar com autenticidade. Perder para ganhar é a nova lógica que Jesus nos apresenta. E numa busca essa realidade é inadiável, pois quando saímos para procurar algo perdemos tempo, gastamos dinheiro, perdemos a comodidade e o conforto de nossas seguranças. Mas na descoberta experimentamos ganhos valiosos. A atitude de busca exige movimento e atitudes sábias, discernimento. Essa capacidade de distinguir o que realmente tem valor é vista nos personagens nas parábolas de Jesus no Evangelho. Um homem tem a capacidade de ver quão valiosa é a compra de um campo por causa do tesouro nele escondido. O comprador tem a capacidade de ver o valor da pérola acima de todas as outras. Também na primeira leitura (1Rs 3,5.7-12), quando Salomão se tornou rei, ele não pediu a Deus riquezas ou outras bênçãos, mas sabedoria para distinguir entre o bem e o mal. Deus atendeu seu pedido e Salomão ficou conhecido como a pessoa mais sábia no Antigo Testamento. E na segunda leitura (Rm 8,28-30), Paulo ensina que a sabedoria para perceber a graça de Deus é essencial para aqueles que querem segui-Lo e fazer sua vontade, permanecendo assim em seu Reino, porque “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

Assim como esses personagens podem distinguir o que é realmente valioso e o que não é, nossas buscas devem seguir a mesma linha, principalmente no que se refere à nossa humanidade. O que estamos buscando está nos tornando mais humanos? E está nos aproximando mais dos outros e de Deus? Deus nos conceda abertura da mente e do coração para sermos transformados pela preciosidade do Reino de Deus, assinalado na vida e no projeto de Jesus. Assim, desprendidos do supérfluo saibamos abraçar a riqueza do Reino e acolhê-lo como um tesouro que mobiliza o nosso coração e ressignifica a nossa vida.

Marcos Bento