GESTOS E PALAVRAS NA LITURGIA

17. ÁGUA UNIDA AO VINHO

Hoje queremos analisar um gesto muito simples e muito antigo que acontece na celebração da Eucaristia. Refiro-me à mistura da água e do vinho que acontece no momento da apresentação das oferendas. Seu sentido teve longa evolução e diferentes interpretações.
Na Instrução Geral do Missal Romano (n.142; cf. n. 178) se lê: “De pé, ao lado do altar, (o sacerdote) derrama vinho e um pouco de água no cálice, enquanto o ministro lhe apresenta as galhetas”. Em silêncio, o sacerdote diz: Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.
Antes de tudo, é preciso recordar que, antigamente, pelo fato do vinho ser muito forte, de costume, se misturava com água. Por isso, com boa razão, podemos pensar que Jesus tenha misturado a água ao vinho e que esta praxe tenha continuado na celebração da eucaristia desde o início.
Pelos meados do II século, o filósofo São Justino escreve: “Então, é levado ao preposto dos irmãos um pão e um cálice de água e vinho temperado”. São Cipriano, um século depois, explica: “Com a água, entende-se o povo, no vinho se manifesta o Sangue de Cristo. Quando no cálice se mistura a água ao vinho, o povo se une a Cristo, e o povo dos crentes se une com Aquele no qual acreditou. Essa união da água e do vinho dá lugar a uma mescla no cálice ao ponto que não se pode separar entre eles. Por isso, nada poderá separar a Igreja do Cristo... Se se oferecer só vinho, o Sangue de Cristo está sem nós; se tiver só água, o povo está sem Cristo”. O santo bispo de Cartago queria defender a necessidade de celebrar com água e vinho, contra um grupo (de heréticos) que tinham excluído o uso do vinho da celebração eucarística.
Essa motivação é, sem dúvida a principal e a mais atendível, de um ponto de vista histórico, aceita também por Santo Tomás e pelo Concílio de Trento.
Ao longo da história, encontramos, desde a antiguidade, também outras interpretações da água unida ao vinho. No tempo da heresia ariana, serviu para destacar a união das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana; na Idade Média, alguns teólogos unem esse gesto às palavras de são João (19,34), quando afirma que água e o sangue saíram do lado de Cristo traspassado pela lança.
É significativo o fato da oração ser feita em silêncio, para que, observa um liturgista (Roguet) “gestos puramente funcionais que precedem ou seguem a liturgia eucarística não adquirem aos olhos dos fiéis a mesma importância das ações sagradas”.
Desejo que, conhecendo origem e sentido desse gesto, todos participem da Eucaristia com maior intensidade espiritual.
Dom Armando