GESTOS E PALAVRAS NA LITURGIA


16. IMPOR AS MÃOS

Hoje quero conversar a respeito de um gesto tão frequente em nossas celebrações e muito importante: a imposição das mãos. É gesto que retorna na celebração de vários sacramentos e que vem da Tradição bíblica. Jacó abençoa os netos, Manassés e Efraim, filhos de José, impondo a mão sobre a cabeça deles (cf. Gn 48,14); em Levítico (9,22), se lê: Aarão levantou as mãos em direção do povo e o abençoou; Moisés impõe as mãos sobre seu sucessor, Josué, e ele ficou cheios de espírito de sabedoria (Dt 34,9).
Nos evangelhos, encontramos Jesus impondo as mãos sobre os doentes (Mc 6,5), sobre as crianças (Mt 19,13), sobre uma mulher que estava com um espírito que a tornava doente, que imediatamente se endireitou, escreve o evangelista Lucas (13,13). Poderíamos continuar com outros exemplos. 
O estilo de Jesus é assumido pelos seus apóstolos. Só alguns exemplos: depois da escolha dos Sete para servirem às viúvas de língua grega, esses Sete são apresentados aos apóstolos que oraram e impuseram as mãos sobre eles (At 6,6). Em Atos, conta-se de um certo mago Simeão. Este observou como os apóstolos faziam e viu que o Espírito era comunicado pela imposição das mãos dos apóstolos. Então, disse: Dai, também, a mim este poder, disposto a pagar um bom preço. Pedro lhe respondeu: Que teu dinheiro vai contigo à perdição! (Atos 8,18-20. Na igreja que estava em Antioquia Paulo e Barnabé foram escolhidos para uma missão. Então, todos jejuaram e oraram, impuseram as mãos sobre eles e os deixaram partir (cf. Atos 13,1-3).
O apóstolo Paulo recorda ao discípulo Timóteo: Não te descuides do carisma que está em ti, que ti foi dado mediante uma profecia acompanhada da imposição das mãos dos presbíteros (1 Tm 4,14); e ainda: Quero exortar-te a reavivar o carisma que Deus te concedeu pela imposição de minhas mãos (2Tm 1,6).
Esses textos são suficientes para compreender o sentido e o valor do impor as mãos quando da celebração dos sacramentos. Recordamos alguns momentos em que a liturgia pede a imposição das mãos. Antes de tudo, na celebração da Eucaristia, sobre o pão e o vinho, invocando sobre eles o Espírito Santo e, no final da missa, na bênção solene sobre a Comunidade reunida; na Confirmação, pedindo sobre os crismandos os sete dons; na Penitência, enquanto se diz a fórmula de absolvição; na Unção dos Enfermos, para pedir sobre eles a força do Senhor; no Matrimônio, durante a bênção solene, após o Pai-nosso; enfim, de maneira muito significativa, na Ordenação de diáconos, presbíteros e bispos, em que esse gesto é o principal, juntamente com as palavras que o bispo pronuncia. A imposição das mãos pode substituir, no Batismo, a unção pré-batismal, com o óleo dos catecúmenos.
Impor as mãos, portanto, é gesto litúrgico fundamentado na Tradição bíblica “que exprime visualmente os dons de Deus e a mediação eclesial” (J. Aldázabal, p. 174). 
Esse gesto, que Jesus passou aos seus apóstolos e às mãos deles, é convite para tomarmos consciência da dignidade das mãos não só dos ministros ordenados, mas de todos. O Salmo (24, 4) canta: Somente quem tem mãos puras e inocente o coração pode subir a montanha do Senhor.  Com mãos puras e muito amor, os pais no abençoar seus filhos, impunham as mãos em sinal da bênção divina.

Dom Armando