GESTOS E PALAVRAS NA LITURGIA

15. A ÁGUA BENTA

Entre os sinais que a Igreja usa para abençoar os fiéis, encontra-se a água. Já falei a respeito do aspergir com água. Hoje vamos refletir a respeito da água benta e seu uso na vida cristã e nas celebrações litúrgicas.
Na noite da Vigília pascal e no tempo de Páscoa, a liturgia dá um destaque especial à água benta. A água é elemento indispensável para a vida. Plantas e animais, assim como o ser humano, necessitam desse elemento ‘sem odor, sem sabor e sem cor’, mas que tem todos os gostos quando estamos com sede.
A água é usada nas diferentes religiões com o sentido de purificar. As águas do rio Ganges, como do Nilo e do Jordão, servem para abluções ou banhos sagrados. Pensemos em João Batista e seu batismo com água para a conversão (Mt 3,11). Mas, aquele que vem depois de mim, Cristo, vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.
A água, sobretudo, tem uma ligação especial com Cristo. Eu sou água viva, diz Jesus no belíssimo diálogo com a Samaritana (cf. Jo 4,10), quem beber dessa água nunca mais terá sede (Jo 4,14). Na Bíblia, a água retorna com seu valor prático e em sentido simbólico. No princípio... o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1,2). Pela boca do profeta Ezequiel (36,25), para expressar o dom do Espírito sobre o povo desanimado e infiel, Deus promete: Derramarei sobre vós água pura e sereis purificados. No evangelho de João (7,37-39), a água serve para descrever a presença vivificante do Espírito: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim... Ele disse isso falando do Espírito que haviam de receber os que acreditassem nele.
Todo esse simbolismo é acolhido pela liturgia quando a água é abençoada. Uma oração de bênção da água diz: “Bendito sois, Senhor, Deus todo-poderoso, que vos dignastes abençoar-nos em Cristo, água viva de nossa salvação, e reformar-nos interiormente, concedei-nos, junto com a aspersão e o uso desta água, renovar a juventude de noss’alma e sempre poder caminhar na vida pela graça do Espírito Santo”. O Ritual propõe que, ao aspergir os fiéis, diga-se: “Que esta água lembre o nosso Batismo e o Cristo que nos salvou por sua Morte e Ressurreição”.
É importante entender o rico sentido espiritual ligado ao rito de benzer a água. Com esse gesto, lembramos Cristo, água viva, e o Sacramento do Batismo que nos fez renascer pela água e pelo Espírito. Todas as vezes que usarmos água benta, estamos dando graças a Deus por todos os seus dons e imploramos sua graça e sua ajuda para que, com a força do Espírito, continuemos firmes na caminhada que o Batismo iniciou.
O papa São Leão Magno (V século) escreve: “Para todo ser humano que renasce, a água do Batismo é como o seio virginal. O mesmo Espírito, que fecundou a Virgem, fecunda também a fonte de água”. Santa Teresa de Ávila (século 16) escreve: “Eu vi, muitas vezes, por minha experiência, que não tem nada mais eficaz do que a água benta para afastar os demônios e impedi-los voltar... A força da água benta deve ser muito grande. Eu experimento um consolo especial e muito sensível quando uso dela. De costume, ela me faz experimentar um bem-estar que não saberia dizer, e uma alegria interior que fortifica totalmente a minha alma” (em Autobiografia, cap. 31).
Dom Armando