3º DOMINGO DE PÁSCOA – ANO A

LEITURAS:
At 2,14.22-33
Sl 15
1Pd 1,17-21
Lc 24,13-35
Por Ele é que alcançastes a fé em Deus” (1Pd 1,21a)
O caminho de Emaús é um itinerário de conversão que leva à fé. Os dois discípulos passam do apego ao passado (Jesus morto e colocado no sepulcro) à certeza da ressurreição. Eles restauram a visão e adquirem clareza para sua fé em Deus, reavivando a esperança de que Jesus está vivo.
Para essa mudança de consciência, o Evangelho de hoje (Lc 24,13-35) traz três elementos que indicam o que a ação de Cristo desperta em nós: o Caminho, a Escuta e o Olhar. Jesus caminhou com os dois para Emaús. “Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24,16). Seus olhos foram impedidos de ver o Ressuscitado. Estavam orientados para o chão, por causa da tristeza e da dor decorrentes da morte do “profeta poderoso” (Lc 24,19).
Diante da tristeza dos discípulos, Jesus age com sabedoria. Não começa imediatamente dizendo “eu sei por que vocês estão tristes”, mas espera que eles falem das angústias, medos e dúvidas que apertavam seus corações. Do caminho aprendemos a escutar mais antes de falar. Mas por que eles não reconheceram Jesus, se, por muito tempo, conviveram com Ele? A morte de Jesus numa cruz decepcionou os discípulos e suas esperanças messiânicas foram enterradas com Ele na sepultura. A fé deles estava gravemente ferida, mas Jesus quis renová-la porque dele alcançamos a fé em Deus (Cf. 1Pd 1,21).
Os olhos dos discípulos estavam orientados para o chão para não reconhecerem imediatamente o Cristo ressuscitado, surpreendendo-se de uma só vez. Para reconhecer o Senhor é preciso uma experiência de vida. Isso exige tempo. Por isso, eles conversam abertamente com Jesus que lhes explica as Escrituras (Cf. Lc 24,27). Eles escutam Jesus que se revela como o cumprimento Escrituras. De fato, há muitas passagens nas Escrituras associadas a Cristo (profecia, promessa ou oração). Na Santa Missa a Palavra é proclamada de uma mesa, servindo para nos alimentar. A fé vem pela escuta (Cf. Rm 10,17). Você quer acreditar no Ressuscitado? Então abra seus ouvidos, escute a Palavra e alimente sua fé.
Mesmo assim os discípulos não reconheceram Jesus. Era preciso vê-Lo, já que ninguém O tinha visto ainda (Cf. Lc 24,24b). Era preciso um sinal. “A lâmpada do corpo é o olho” (Mt 6,22). Nossos olhares redimensionam nosso ponto de vista sobre o mundo, sobre os outros, sobre Deus e sobre nós mesmos. A fração do pão não é causa, mas ocasião para o reconhecimento do Ressuscitado. “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (Lc 24,31). Ao comungar o corpo de Cristo somos provocados por uma responsabilidade – criar comunhão, para viver segundo o dom que recebemos (Corpo de Cristo). Interessante que a fração do pão acontece a noite. Na noite que seria escura Jesus permite que os discípulos abram os olhos e vejam a luz. A Palavra se torna vida quando os olhos se abrem ao partir o pão. Daí em diante a vida se transforma.
Se os discípulos reconheceram Jesus ao partir o pão, então sua presença corporal não era mais necessária. A convicção de Sua vida ressuscitada estava firmemente fixada nos discípulos, por isso, “Jesus desapareceu da frente deles” (Lc 24,31b). Ele se foi de nossa vista para que passemos a vê-Lo com os olhos da nossa fé. Por isso, a fé é o olho da alma. Após a experiência do caminho com Jesus, da escuta da Palavra e do partir o pão, os olhos dos discípulos não são mais os mesmos. “O sinal da ressurreição é a transformação das testemunhas, como indica o retorno apressado dos discípulos de Emaús” (Jean-Louis Souletie).
Precisamos redimensionar nosso olhar e ver tudo de uma nova maneira. Os olhos do nosso corpo fecham e abrem por um ato de vontade do nosso cérebro. E os olhos da nossa fé fazem esse mesmo movimento, do escuro para o claro. Como estão nossos olhos? O que ainda nos impede de ver Jesus? Nossos olhos estão abertos para observar os sinais da presença de Deus ou fechados por causa da falta de coragem para conhecer aquele que é o “Pão da vida” (Cf. Jo 6,48)? Ou será que nossos olhos estão fechados porque queremos apenas olhar para nossas intimidades e já não sabemos mais como enxergar o que é externo? Quantas vezes fechamos nossos olhos numa tentativa egoísta de ver apenas nosso interior ou mesmo para ocultar de nossa mente as trevas que atormentam nossa realidade.
Tal como os dois discípulos de Emaús, na revisão do nosso olhar, rompe-se o passado de morte e tristeza, para dar lugar a esperança e a vida que brota da Ressurreição. O Ressuscitado permanece conosco. Se alguém disser “eu não consigo vê-Lo”, basta lembrar do que diz o autor de O Pequeno Príncipe (A. Saint-Exupéry), “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. 
Marcos Bento
3º Teologia