O ANO LITÚRGICO V

Continuamos nossa reflexão a respeito do Ano litúrgico.
A salvação que Jesus realizou com sua vida, morte e ressurreição, entra no tempo de nossa vida através das celebrações litúrgicas. Os tempos litúrgicos são o marco da presença da salvação, no aqui e agora da vida humana. Não são simples apresentações dos acontecimentos da vida de Jesus, quais exemplos a imitar. A liturgia representa, no sentido de que torna presentes­ os mistérios da vida de Jesus no decorrer do tempo, após sua glorificação, uma vez que Ele foi subtraído às leis e às limitações do tempo.
Com essas premissas, torna-se mais claro compreender o sentido do Domingo e do Ano litúrgico.
Antes de tudo, procuremos compreender o sentido do Domingo para a fé dos cristãos. Os nossos primeiros irmãos e as primeiras irmãs de fé em Jesus se reuniam, a toda semana, para fazer memória do ato de amor que levou o Filho de Deus a morrer na cruz. Escreve Sacrosanctum Concilium (n. 102): “Em cada semana, no dia que ela chamou de Domingo, a Igreja comemora a Ressurreição do Senhor”. E acrescenta: “Devido à tradição apostólica que tem sua origem do dia mesmo da Ressur­reição de Cristo, a Igreja celebra cada oitavo dia o Mistério Pascal” (n. 106).
Por que foi escolhido o Domingo como dia da celebração? A resposta unânime dos evangelhos  é que foi no dia “depois do sábado, ao raiar o primeiro dia da semana” (Mt 28,1) que as mulheres encontraram o sepulcro vazio e, em seguida, tiveram a aparição do Senhor Jesus. Por isso, sem deixar - no início - de participar do culto hebraico, os seguidores de Jesus davam destaque especial a esse dia. O Domingo é dia que manifesta o senhorio de Jesus Cristo sobre o mundo. SC (n. 106) diz que o Domingo é “um dia de festa primordial que deve ser lembrado e inculcado à piedade dos fiéis, de modo que seja também um dia de alegria e de descanso do trabalho”. Esse dia é chamado, também, de oitavo dia porque evoca a inaugu­ração da nova criação, o começo de um novo tempo iluminado pela presença do Ressuscitado.
A obrigação de participar da Eucaristia a todo Domingo, deve ser vivida na tanto como uma lei, mas como exigência de fé e de pertença. Escreve a Didascalia dos Apóstolos, um documento da metade do III século: “Que ninguém diminua a Igreja não comparecendo, para não diminuir de um membro o corpo de Cristo”; e a carta aos Hebreus (10,25) já expressa uma queixa: “Não abandonem as nossas assembleias como alguns costumam fazer”.
Como os cristãos de hoje vivem o Dia do Senhor? Os ritmos de trabalho e os hábitos da sociedade já abafaram em muitos cristãos o sentido precioso desse tempo tão benéfico para a vida das pessoas. Shopping, lojas, mercados e supermercados continuam abertos, também aos domingos. Um número significativo de pessoas que se declaram cristãs e católicas, de fato, deixaram que o lucro ou o lazer assumissem importância determinante em suas vidas; são os velhos e sempre novos ‘deuses’ que dominam e aos quais ‘se sacrificam’ muitas horas do ‘tempo que passa’. Os valores humanos e religiosos deste Dia santo parecem não ter sido perdidos, ou (ainda) não foram compreendidos.
Reafirmamos que louvar a Deus e encontrar com a Comunidade de fé, faz bem às nossas vidas. O repouso festivo visa não só reconhecer a primazia de Deus e a força transformadora da Ressurreição do Senhor, mas, também, a importância do descanso para reequilibrar a vida.
Então, vale a pena refletir – sobretudo os cristãos: como vivemos o Dia do Senhor? Como poderíamos vivê-lo para torná-lo, de verdade, um ‘dia santo’ que nos enche de vida?

Dom Armando