SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Leituras:  
Pr 8,22-31; 
Salmo 8,4-5.6-7.8-9
Rm 5,1-5
Jo 16,12-15

Domingo passado, celebramos o dom do Espírito Santo sobre cada um de nós. E assim concluímos os cinquenta dias das solenidades pascais. Na Páscoa de Jesus e nossa páscoa na d’Ele, pudemos experimentar como Deus foi – e continua sendo – extremamente bom para conosco.
Hoje, como que buscando vivenciar ainda mais intensamente a beleza de Deus, celebramos a sua própria intimidade de amor e vida a se expandir para dentro da história da humanidade.
Que bom estarmos reunidos novamente, nesta Solenidade da Santíssima Trindade.
O que Jesus nos diz hoje, ele o pronunciou, segundo o Evangelho de João, no momento solene e, ao mesmo tempo, dramático de sua despedida. Foi durante a última ceia. A cabeça dos apóstolos já estava atordoada com tudo o que Jesus tinha dito ali em torno à mesa. Por isso ele fala: “Tenho ainda muitas coisas a dizer. Mas vejo que vocês não estão em condições de entender agora. Depois que eu for glorificado, isto é, depois que eu morrer e ressuscitar, o Espírito Santo vai clarear para vocês a verdade das coisas. Vocês vão entender a amorosa, misteriosa e encantadora cumplicidade que existe entre nós três, o Pai e eu e o Espírito Santo. Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e o anunciará a vocês. Não se aflijam!”.
Os sábios do Antigo Testamento falam da eterna Sabedoria de Deus (I leitura): “Antes que a terra fosse feita, a Sabedoria já tinha sido concebida”. E o salmista, encantado com a divina Sabedoria que se expande por todo o universo, exclama: “Ó Senhor nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo”. Sabedoria essa que se expressa especialmente no carinho que Deus tem pelo ser humano, fazendo dele um ser quase divino: “Senhor, que é o ser humano, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho? Pouco abaixo de Deus o fizestes, coroando-o de glória e esplendor; vós lhe destes poder sobre tudo, vossas obras aos pés lhe pusestes” (Sl 8,5-7).
  Para nós cristãos, isso ficou muito mais patente. Entregando-nos a Jesus Cristo, à sua palavra e exemplo, sentimo-nos como que cair nos braços aconchegantes de Deus, experimentamo-nos em paz com ele. Como testemunha o apóstolo Paulo (II leitura), sentimos todo o amor de Deus “derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que os foi dado”. E assim nem as tribulações nos amedrontam mais. Pois é a força do amor da Trindade – do Pai e do Filho e do Espírito Santo – habitando em nossos corpos que nos dá firmeza em nossos passos rumo à glória futura.
Santíssima Trindade! Eis a “riqueza inesgotável que a Igreja nos aponta para que saibamos onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho Jesus e no Espírito de Jesus que nos anima. Lá encontramos Deus, e o encontramos não como bloco de granito, monolítico, fechado, mas como pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o Pai que nos ama e nos chama à vida; o Filho Jesus que, sendo bom e fiel até o dom da própria vida na morte da cruz, nos mostra de que jeito é o Pai; e o Espírito Santo, que doutro jeito ainda, fica sempre conosco. O Espírito atualiza em nós a memória da vida e das palavras de Jesus e anima a Igreja. E todos os três estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus essencialmente é: amor” (J. Konings).
Sobretudo nos nossos tempos, em que a humanidade tende a isso mesmo, à falta de qualidade de vida, decorrente do endeusamento do efêmero e transitório, temos que aprender a nos conectarmos sempre mais à essência de nós mesmos, isto é, à Trindade santa que nos habita. Então o mundo será melhor, com certeza.
Por isso estamos aqui hoje. E é por isso que, como cristãos e cristãs, discípulos e discípulas de Cristo, nos reunimos todos os domingos. Para aprendermos a nos conectar com nossa essência e, a partir desta conexão, aprendermos a construir comunidade, Reino de Deus, sobre este nosso chão. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, feita união, comunhão e partilha. A partir dela, em conexão permanente com ela, é que seremos bons colaboradores dela para uma sociedade humana mais sadia.

(Do texto de Frei Ariovaldo da Silva in Roteiros Homiléticos).