A ELEIÇÃO DO PAPA FRANCISCO: A ESPERANÇA NÃO DECEPCIONA (Rm 5,5)


Ontem foi um dia muito especial na vida da Igreja de Cristo, foi a eleição do sucessor de Pedro, aquele que Jesus escolheu para conduzir sua Igreja (Jo 21, 1-19) como o primus inter pares (primeiro entre os iguais).
É sabido por todos a crise que a Igreja Católica vive nos últimos tempos, aliás como sempre em todos os tempos. A Igreja de Cristo desde o início sofreu e sofre, sendo atacada por dentro e por fora. Entretanto a história tem mostrado a sua resistência. Isto nos faz crer mais uma vez que ela não é nossa, mas de Jesus. Como disse o Papa Bento XVI no discurso de sua despedida: “senti-me como São Pedro com os Apóstolos na barca no lago da Galileia: o Senhor deu-nos muitos dias de sol e brisa suave, dias em que a pesca foi abundante; mas houve também momentos em que as águas estavam agitadas e o vento contrário – como, aliás, em toda a história da Igreja – e o Senhor parecia dormir”. Realmente precisamos tomar essa consiciência de que apesar de nós é o próprio Jesus que guia a sua Barca através da nossa fragilidade humana.
A renúncia do Papa, que foi um gesto muito grandioso de humildade, trouxe muita ansiedade e expectativas para todos nós. Todos nos perguntávamos: quem será o novo papa? Qual o cardeal com o melhor perfil para governar a Igreja Católica?  etc.  A imprensa nestes tempos, depois do dia 28 de fevereiro não falava outra coisa, inclusive definindo segundo seus critérios, o novo papa. Mostrava os candidatos ao pontificado como se fosse um candidato comum a ocupar um posto político. E para falar a verdade, em certo modo isto influenciava também todos nós clérigos e leigos. Falava de uma politica de bastidores entre os cardeais, a Cúria Romana, etc.,  e tudo isso nos deixava apreensivos e até temerosos.
Ontem, nós padres estudantes, fomos mais cedo para a praça São Pedro para esperar já alguma coisa do primeiro escrutínio da parte da tarde. As 17h não apareceu nenhuma fumaça no chaminé, o que indicava nenhum resultado positivo. Permanecemos lá debaixo de muita chuva e muito frio. O momento era de tensão e ansiedade, mas ao mesmo tempo de esperança e de oração. E eis que de repente a fumaça branca aparece as 19h07min. Ao mesmo tempo os sinos começaram a badalar anunciando a eleição do novo Papa. A emoção tomou conta de todos nós. Éramos uma multidão de milhares e milhares de pessoas, na sua maioria jovens. Todos aplaudiam, gritavam, cantavam, rezavam, pulavam. Um momento, realmente único. Depois se passou mais uma hora de espera e eis que na sacada da basílica de São Pedro o protodiácono aparece e anuncia: “HABEMUS PAPAM: Jorge Mário Bergoglio, que se chamará Francisco”. Imediatemente os comentários apareciam dizendo: é argentino, de Buenos Aires.
Após o anúncio o Papa sai e acena para a multidão, que o ovaciona fortemente. Ele cumprimenta a todos com um gesto humilde e sorridente. Aparece totalmente de branco despojado das vestes vermelhas, símbolo da nobreza (realeza). Pede a multidão para rezar para o bispo emérito de Roma. Todos o acompanham na oração do Pai-Nosso e da Ave-Maria. Em seguida, antes de abençoar o povo, pede que o povo o abençoe primeiro. Curva sobre a sacada para receber a bênção do povo. Coloca a estola, dá a bênção ao povo e depois tira a estola. Todos ficamos comovidos com esses poucos gestos de simplicidade do novo Papa. Em seguida o sentimento de alegria invadiu o coração da multidão. Chegava ser palpável a leveza e o clima de serenidade que pairava sobre todos. O nome por si já conseguiu falar muito e com os seus gestos o seu perfil foi compreendido e o povo se sentiu conquistado.
Neste momento era unânime entre os comentários: que bela surpresa! Mas uma vez ficou claro que é o Espírito Santo quem escolhe e que conduz a Igreja de Jesus. Nenhuma das apostas dos jornais se tornou factível.
Voltando para casa, era visível a alegria de todos. Pelas ruas os jovens cantavam, gritavam, pulavam... Era um clima de entusiasmo e emoção.
Hoje aqui em Roma, um dia depois, o novo Papa fez algumas supresas. Numa coletiva de imprensa os nossos cardeais brasileiros comentavam suas atitudes. Ontem, depois da aparição, ele recusou entrar no carro oficial para ir de ônibus junto com os outros cardeais para o jantar. Na hora da bênção disse: “que Deus abençoe os nossos alimentos, a todos nós e, virando para os cardeais... e que ele vos perdoe por me terdes escolhido”. Hoje pela manhã ele foi ao hotel pagar a conta e pegar sua mala. Depois foi à basílica Santa Maria Maior e quando chegou lá disse aos zeladores da Igreja: “deixe-me entrar,vim como um peregrino agradecer à Nossa Senhora”. E nesta tarde, durante a missa com os cardeais, fez uma pregação informal e espontânea.
Neste momento, neste início de pontificado, os primeiros gestos vão dando aquela primeira impressão de um espírito profundamente fransciscano, com uma tônica de grande simplicidade. Quem sabe ser esta a mensagem evangélica que o Espírito Santos nos quer transmitir neste momento tão materialista da nossa história humana. Rezemos pelo nosso novo pontífice (fazedor de pontes) para que consiga ligar a Igreja com todos aqueles que precisam aproximar de Cristo e construir um mundo melhor de mais fraternidade, de justiça e de paz. Viva o Papa Francisco!

Pe. Nicivaldo de Oliveira Evangelista
Roma - Itália