A RENÚNCIA DO PAPA BENTO XVI


Esta semana, dia 11 de fevereiro, depois do meio dia, fomos tomados de surpresa com a bombástica notícia da renúncia do Papa Bento XVI. Era quase inacreditável ouvir esta notícia. Aqui no Colégio Pio Brasileiro, tantos de nós padres corremos imediatamente para a TV para escutar o que parecia não ser verdade. Entretanto, o era! Durante o almoço no nosso refeitório, geralmente com cerca de 90 padres, o comentário em meio ao estupor da notícia dava ao mesmo tempo um clima de velório; essa era a impressão! Entre tantos comentários, porém, parecia unânime a compreensão, da nossa parte, em ver na atitude do Papa um gesto de tamanha grandeza, coragem e profunda humildade.  A essa altura, já passados quatro dias da renúncia, olhando vários jornais aqui em Roma, vendo os canais de TV e também a internet, constata-se que a renúncia do Papa tem ocupado sempre as primeiras manchetes dos noticiários. Isto mostra a relevância do acontecimento. É possível notar neles uma compreensão, associada a uma avaliação positiva, do gesto de Bento XVI, sempre mostrado como surpresa, mas também como grande ato de humildade. Ao mesmo tempo, as notícias estão sendo acompanhadas de mil especulações e suposições acerca da mesma renúncia, como se os motivos alegados não se justificassem por si. Qual avaliação podemos fazer a respeito, dentre as tantas? A monarquia do papado é uma tradição da Igreja em sua milenar história. A tradição deve ser compreendida como uma coisa viva e dinâmica, além do que, toda a história da humanidade é sempre passivel de mudanças, rupturas e continuidades. Mudar uma tradição não significa, necessariamente, negar a história ou anular o seu significado, e, muito menos, neste caso em específico, dessacralizar a figura do “sucessor de Pedro”, como alguns já o tem afirmado. Esta é, quem sabe, uma oportunidade para uma renovação da estrutura da nossa Igreja. Talvez Bento XVI, com sua inesperada renúncia, inaugura no pontificado uma mudança de agora em diante. É possível imaginar o peso e o sofrimento para uma pessoa muito idosa carregar sobre si a responsabilidade de uma instituição grande e milenar como a Igreja. Além disso, não há nenhum preceito bíblico ou canônico que afirme a permanência vitalícia do Sumo Pontífice! De um ponto de vista da sacramentalidade tornar-se Papa não é receber mais um grau da ordem, mas um título atribuído ao Bispo de Roma que, como responsável maior, tem o dever de ser sinal de unidade e gerador de comunhão de toda a Igreja de Cristo, presente em todos os cantos da Terra.  A estas questões precisamos também compreender, dado que até já o sabemos, seguramente, que o Papa Bento é um dos grandes intelecutais teólogos deste nosso tempo. Ele possui uma profunda lucidez e compreensão do estado da Igreja, do mundo e da sua função como Papa. Concluímos, pois, que ele sabe muito bem o que fez, como propriamente o afirmou: “Estou bem consicente...para comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja.” A sua grande atitude de humildade revelou, ao mesmo tempo, para nós, a sua profunda liberdade interior. Demonstrou, por esse gesto, que abraçou o pontificado, verdadeiramente, como serviço e não como título de honra ou poder. Esta é uma grande lição que fica para todos, sobretudo, num mundo onde são sempre mais escancaradas as lutas aguerridas pela obtenção do poder em vista dos interesses, do domínio e da satifação de egos ávidos, porém débeis.  Assim, registramos uma página diferente na história da nossa Igreja. Somos testemunhas deste momento ímpar. Sabendo que os fracos julgam e os fortes compreendem, convido a oramos pela nossa Igreja que, apesar de ter líderes espirituais e formada por todo o “Povo de Deus”, todos frágeis, limitados e pecadores, pertence a Jesus Cristo, cabeça deste grande corpo e que é “Caminho, Verdade e Vida”.  Logo mais teremos outro “sucessor de Pedro”. Roguemos a Deus para que o Espírito Santo ilumine os nossos caredeais, reunidos em Conclave a partir do dia 15 de março, para elegerem o novo Papa. Que a escolha seja bastante acertada para que o novo Pontífice tenha a sabedoria necessária para conduzir a “Barca de Pedro” nestes tempos difíceis e desafiadores da nossa história, e que possa governar a mesma com sabedoria, humildade e coração de pastor, a exemplo do Cristo que a instituiu. 

Pe. Nicivaldo de Oliveira Evangelista
Roma - Itália