“Um povo sem memória é um povo sem história”


Nesta semana, tenho um filme para indicar. Eu te sugiro...
Assista “Narradores de Javé”.
Enquanto assistia ao filme, lembrava-me das aulas no curso de Liturgia da Escola de Teologia para Leigos da Diocese. Dom Armando, nosso professor, costumava dizer a expressão “fazer memória” ou ainda “memorial” para falar de uma ‘atualização’ da memória, como que um ‘reviver a trajetória’. Ele dizia: “na celebração eucarística, fazemos um memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus”. E ainda lembrava sempre: “um povo sem memória é um povo sem história”.
Nesse filme, memória e história são duas palavras-chave. Elas são responsáveis pelas construções imagéticas elaboradas pelos narradores, que falam no presente, fazendo memória das trajetórias vividas.
Narradores de Javé é um filme brasileiro (2003), que conta a história de um povoado fictício chamado Vale do Javé. Trata-se de um lugarejo localizado no sertão da Bahia, que está prestes a ser inundado por conta da construção de uma usina hidrelétrica que promete trazer progresso para a região.
Diante do drama prenunciado, e sabendo que única forma de salvar Javé da inundação seria a apresentação de um dossiê “científico” mostrando que o povoado deveria ser tombado como patrimônio histórico, o povo decide procurar o escrivão Antônio Biá (José Dumont), que, em certa ocasião, foi expulso de Javé por ter escrito cartas difamando o povo do lugar, a fim de salvar seu emprego nos correios. É que a agência estava sob a ameaça de ser fechada por falta de movimento, uma vez que o povo de Javé não sabia ler e escrever.
Biá morava sozinho nas redondezas de Javé e foi de lá resgatado para escrever o “livro da salvação”, que deveria contar a história das origens do lugarejo a partir da narração dos moradores.
No decorrer do filme, toda a história vai sendo lembrada por Zaqueu (Nelson Xavier), um dos antigos moradores.  Ele era um líder da comunidade e, além de ter sido o porta-voz da notícia da inundação, foi quem teve a ideia do dito livro. Zaqueu aparece desde o início do filme, em um estabelecimento comercial, contando aos presentes a história do Vale do Javé.
A partir daí surgem as personagens que, conforme o relato de Zaqueu, deveriam apresentar a Biá os fatos ocorridos desde o surgimento de Javé. O problema é que cada um narra a história com uma versão diferente, tendendo a puxar para si o protagonismo sobre a mesma, alegando ter parentesco com o fundador do vale. Há, nessas cenas, um jogo interessante entre oralidade, escrita e imagens. Enquanto os narradores contam sua história, eis que aparecem os heróis à sua imagem e semelhança. Assim, enquanto fazem memória de algo que marcou seu passado, atribuem para si uma importância no presente. Isso é uma afirmação de valor. E, aqui, vale não só a história, mas quem a conta e sob qual perspectiva.
As histórias são hilárias. São interessantes também a perspicácia e a sagacidade do escritor, Antônio Biá, que, na verdade, não estava registrando nada no livro. Só para ilustrar, há uma cena muito engraçada: enquanto o povo perseguia Biá para que ele privilegiasse a sua respectiva história, o barbeiro oferecia-lhe corte gratuito de barba por um bom tempo. Mas, Biá respondeu altivo: “Não confunda habeas corpus com Corpus Christi”.
Esse filme foi apresentado aqui porque ele nos ajuda a fazer uma leitura interessante sobre a identidade de um povo, mostrando a importância de se reconhecer sujeito histórico, a partir de uma caminhada que trouxe marcas do passado e, certamente, deixará marcas para o futuro.
Bom filme!

Raiana Cristina Dias da Cruz
REFERÊNCIA:
NARRADORES DE JAVÉ. Rio de Janeiro: Eliane Caffé (Direção) e Vânia Catani (Produção). Bananeira Filmes, 2003. 01 DVD (100 min.)