Ide por todo o mundo, e a todos pregai o Evangelho


No mês de outubro, em toda a Igreja os cristãos são convidados a refletirem, de maneira especial, sobre o convite (mandato) missionário de Jesus Cristo: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19-20)”. Pelo sacramento do Batismo entramos a fazer parte da família de Deus, e através do sacramento da crisma fomos ungidos para a Missão de anunciar a Pessoa de Jesus Cristo, sua Boa Nova. “Evangelizar é tornar presente a Igreja de Jesus, em todo o lugar onde haja alguém para ouvir a Verdade. Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, sua mais profunda identidade” (Evangelii nunti­andi 14).  Neste sentido, a evangelização revela a identidade, a vocação própria da Igreja, sua Missão essencial. Eis por que a evangelização é o núcleo central da missão da Igreja.  A mesma concretiza-se na preocupação com a pessoa humana em sua totalidade. É compromisso de fé com o ser humano, com seu crescimento, no seguimento de Jesus e com sua plena realização em todos os sentidos, porque entre evangelização e promoção humana, como disse o papa Paulo VI, existem, de fato, laços profundos.  Em sua Missão, a Igreja deve ser profética, deve anunciar o Reino de Deus, que se consolida, quando se respeita a dignidade humana, sobretudo, dos pobres, quando há paz, amor, justiça e fraternidade entre os filhos e filhas de Deus. E Deve também denunciar todo tipo de opressão e de desrespeito para com a vida.  A partir da Conferência Episcopal da América Latina, em Aparecida (SP, 2007), o espírito missionário tor­nou-se ainda mais urgente e comprometedor para toda a Igreja. É preciso que todos evangelizem e sejam evangelizados. Sejam discípulos missionários. O documento está cheio de interpelações e chamamentos que mexem, sacodem e provocam um grande “vendaval do Espírito”, como aconteceu na primeira comu­nidade cristã de Jerusalém, no dia de Pentecostes (At 2,1-13).  Aparecida convida toda a Igreja a orientar-se, com decisão e urgência, para a missão. Seus bens, estruturas, recursos, pessoas e pastorais devem estar voltados para a missão. Todos foram e são chamados a ser discípulos missionários de Jesus Cristo, cada um no serviço específico que escolheu ou que lhe foi confiado (leigos, padres, bispos, operários, lavradores, empresários…).

Minha experiência missionária na Guiné 

Recebi o convite de Deus, que me veio através dos meus supe­riores, para ser missionária na Guiné Bissau. No início, aceitei, quase por susto, mas depois senti medo, sobretudo, porque me parecia algo grande demais para mim, mas depois, movida pelo ardor missionário e pelo desejo de ajudar as pessoas a conhecerem Jesus, me coloquei à disposição e, deixando para trás minha família, meus amigos e o país que tanto amo, viajei para a Itália, onde fiquei por seis meses me preparando e, no dia  27/10/2007  viajei para a Guiné Bissau, onde trabalhei por quatro anos.  Fui designada para a Guiné Bissau, juntamente com mais três irmãs: duas do Quênia, as irmãs Suzana e Margareth (esta não pode viajar por causa do visto, chegou depois de alguns meses), uma da Itália (Ir. Elisa), que era missionária no Brasil, há mais de 24 anos e eu fomos enviadas com o objetivo de abrir uma missão, visando contribuir para a evangelização e promoção humana, naquele país.  Quando falo para as pessoas que fui missionária na Guiné Bissau, alguns me perguntam: onde fica a Guiné Bis­sau? Por que tal escolha? Como foi sua experiência? Então, para quem não conhece, a Guiné é um pequeno país da África Ocidental, que conta com cerca de 1.500.000 habitantes, morando, sobretudo nas “cidades” principais: Bissau (a capital com a sede do governo e da nossa Diocese) com, aproximadamente, 350.000 habitantes, Bafatá (sede da segunda Diocese), Mansoa, Gabú, Bula, Quinhamel, Cantchungo, Cacheu, Buba... E outros pequenos aglomerados de pessoas, que os Guineenses chamam de Tabanca (vila). A Guiné é totalmente plana, se abre para o Oceano Atlântico, contendo várias Ilhas, algumas habitadas outras não, a mais fa­mosa é a ilha de Bubaque, devido às suas lindas praias.  A Paróquia de Blom, onde fomos enviadas, é situada na região de Biombo, e se parece com uma pequena península circundada por braços de mar. O clima, lá, como em toda a Guiné, é quente e úmido em quase todo o ano (exceto nos meses de janeiro e fevereiro). A maioria das pessoas retira o próprio sustento da agricultura, através do plantio de pequenas roças de arroz, amendoim, feijão; do plantio de hortaliças; da colheita do caju (monocultura, pois, está plantado em quase todas as terras férteis do país). Outros se dedi­cam à pesca ou à confecção de tecidos, através do tear, tecidos estes que, para a etnia Papel, é utilizado, sobre­tudo, para envolver os mortos, já que este é um costume herdado dos antepassados e, demonstra res­peito, carinho e grandeza da pessoa falecida, junto aos seus familiares e amigos. Assim, quanto mais pano, mais importante é a pessoa.  Escolhemos a Guiné, porque a situação social, econômica, educacional e sanitária naquele país era muito precária. Desde a sua Independência de Portugal, no ano de 1974, o povo Guineense vem sofrendo as mais duras penas, devido à má governação de políticos inescrupulosos que visam os próprios interesses, deixando o povo à mercê da própria sorte ou aos cuidados dos missionários e ONGS existentes no país.  Todo este descaso, os conflitos entre tribos e a guerra de 1998, que durou 11 meses, contribuiu para o aumento da pobreza e a falta de desenvolvimento do país, em todos os sentidos.  No âmbito religioso a situação é bastante delicada, sobretudo, devido ao fato dos cristãos católicos serem minoria nos país e do pouco sentido de pertença destes a Igreja; do avanço dos mulçumanos estrangeiros no país (eles detêm o monopólio do comércio, da economia). Como também os desafios da inculturação, do dialogo inter-religioso e da Evangelização dos adultos. No país a maioria dos convertidos são jovens e crianças, e estes não têm autonomia para fazer escolhas dentro da própria etnia.  Nos quatro anos em que estive na Guiné, procurei ser presença do amor misericordioso de Deus, através da acolhida fraterna das pessoas, que a cada dia vinham em nossa casa buscando alimentos, remédios, apoio e uma palavra de conforto; através dos meus trabalhos na escola da Missão de Blom, que atendia mais de 350 alunos de 1ª a 5ª classes; através da Evangelização, sobretudo como catequista de crisma e de jovens, que se prepara­vam para o Batismo. Também tentei contribuir com nossa Diocese de Bissau, como coordenadora da ca­tequese no setor de Biombo (faziam parte do nosso setor cinco Paróquias) e como representante das irmãs na equipe permanente do mesmo setor, que era composta por cinco pessoas: 3 padres,  1 leigo e eu.  Minha experiência foi boa, também se tive algumas de dificuldades, para me adaptar ao clima, ao ritmo de vida das pessoas; para lidar com os desafios enormes que nos eram apresentados cada dia e que nos faziam sentir pequenas, impotentes e até insignificantes. Mas, posso dizer que valeu a pena ter aceitado o convite de Deus e o desafio de ser missionária, pois, tal experiência ajudou-me a crescer em todos os sen­tidos, pois, favoreceu o conhecimento de outras culturas, o aprendizado de novas línguas e a possibili­dade de ver estampado o rosto de Jesus, no rosto de tantas crianças, jovens e idosos daquele país, que suplicavam por carinho, atenção e melhoria de vida.   Portanto, agradeço a Deus e a tantas pessoas que rezaram por mim e que me ajudaram a preparar-me para a Missão: foram tantos os cursos, tantas as conversas e palestras; tantos os livros lidos... Valeu! Tudo ajudou e até me atrapalhou, porque achei que seria fácil, cheguei a criar até expectativas...  Depois eu entendi que ninguém tinha me dado uma receita para a minha inserção naquela nova realidade, talvez porque ninguém tenha encontrado, nem eu. Assim, aprendi que para ser missionária precisamos de conhe­cimento, mas, sobretudo, de sensibilidade, maturidade, desprendimento, abertura, respeito, capacidade de adaptação, humorismo, amor pela causa do Reino... E saúde. Veja mais fotos.

Ir. Fátima Cardoso