“Há que planejar e criar nova humanidade. O ser humano é o valor primacial no mundo".



As palavras do título são do Monsenhor Juvenal Arduini, que faleceu no último domingo, dia 14, aos 93 anos de idade, em Uberaba (MG), por conta de uma insuficiência respiratória e complicações de uma pneumonia e um acidente vascular cerebral.
Ele nasceu em Conquista (MG), aos 28 de novembro de 1918. Foi professor na Faculdade de Filosofia Santo Tomás de Aquino.
Era homem de grande sabedoria; profundo naquilo que transmitia, e um ser humano de imensa sensibilidade. Como filósofo e antropólogo, produziu trabalhos de grande peso, imprimindo neles seu vasto conhecimento teológico.
Abro um parêntese aqui para registrar, de passagem, que o presente texto já estava programado e pronto para ser publicado neste dia 18, quando li no jornal a notícia da morte de Mons. Juvenal. Então, decidi reestruturar a introdução para não deixar de mencionar o ocorrido. Fecho o parêntese.
Sendo assim, Eu te sugiro... leia “Antropologia: ousar para reinventar a humanidade”.
O livro aborda aspectos voltados para o ser humano. Arduini defende a humanidade como valor prioritário. E começa o assunto falando das contradições que marcam a pessoa humana. Fala de um ser humano ambivalente, que é conhecido e, ao mesmo tempo, estranho; é lógico e ilógico; é linguagem pluriforme; ora afirma, ora nega; é propenso para o bem e para o mal; é mistura de solidariedade e de egoísmo; é fascinante, e, ao mesmo tempo, uma ameaça; é amor e ódio, justiça e injustiça; é inocência e malícia. É nesse sentido que ele define o ‘paradoxo antropológico’.
Na obra, aparecem entre as temáticas: o amor, a solidariedade, a ética, a globalização, a audácia, a criticidade, o homem e o tempo. Desse modo, o livro encaminha para outras leituras e pede um olhar atento para a realidade.
Tais considerações estão de acordo com o atual momento histórico em que vive a mesma humanidade. Por isso mesmo, aparece em sua obra características da contemporaneidade. É aquilo que, por exemplo, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE: 2011-2015; pp.31-35) apontam como marcas do nosso tempo, quais sejam, grosso modo: o individualismo, a vaidade, o relativismo, o desrespeito aos povos e à natureza.
O mesmo documento observa que, diante desse cenário, as pessoas estão desnorteadas. É como bem traduz o poeta baiano Antônio Brasileiro: “A verdade é uma só: são muitas. Estamos todos certos. E sem rumo”.
Vale a pena transcrever aqui palavras do referido documento:
“A espiritualidade, a vivência da fé e do compromisso de conversão e transformação nos orientam para a construção da caridade, da justiça, da paz, a partir das pessoas e dos ambientes onde há divisão, desafetos, disputas pelo poder ou por posições sociais. Este é um tempo em que, através de ‘novo ardor, novos métodos e nova expressão’ respondamos missionariamente à mudança de época com o recomeçar a partir de Jesus Cristo”. (DGAE n. 24)
Arduini, por sua vez, também convida o homem e a mulher de nosso tempo a reinventar-se:
“A questão fundamental não é perguntar o que o tempo nos trará. A questão vital é definir o que a humanidade irá construir. Se história de vida ou de morte, se história de crescimento ou de ruína. Não basta assistir ao desfile do tempo. Há que agir ousadamente. Há que planejar e criar nova humanidade” (p.15)
Se, como propõe o livro, é preciso deixar-se impregnar pelo amor e fazer a diferença no mundo, são pertinentes palavras dos compositores Almir Sater e Renato Teixeira, na música Tocando em frente: “Cada um de nós compõe a sua história e cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.
Boa leitura!
Raiana Cristina Dias da Cruz
REFERÊNCIA:
ARDUINI, Juvenal. Antropologia: ousar para reinventar a humanidade. São Paulo: Paulus, 2002 (p.171).