29º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Leituras:
Is 53, 10-11
Salmo32
Hb 4,14-16
Mc 10,35-45

O Evangelho deste Domingo se encontra logo depois do terceiro anúncio da Paixão por parte de Jesus. Tiago e João, os filhos de Zebedeu – apelidados de filhos do trovão (cf. Mc 3,17) pelo caráter impetuoso – demonstram muita familiaridade com Jesus ao ponto de pedir-lhe de sentar-se um à direita e outro à esquerda quando estiveres na tua glória! O que significava isso?  Precisamos voltar no início do Evangelho, quando Jesus proclamava: O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo (Mc 1,15). Vendo Jesus realizar grandes milagres, caçar demônios, curar todo tipo de doença, os dois irmãos tinham reconhecido em Jesus o Messias anunciado pelas Escrituras, mas pensam nele como chefe poderoso que teria vencido os inimigos – os romanos que dominavam Israel - e reconquistado o reino de Jerusalém. Eles não tinham compreendido – como os outros dez, os futuros apóstolos – o que Jesus por três vezes tinha dito: um destino de sofrimento e morte. Eles tinham em mente sucesso, poder e glória; sim, alguns sacrifícios, mas para um dia chegar ao poder! Mas... por que tamanha presunção nos dois? Talvez porque eram parentes de Jesus, ou porque foram escolhidos desde o início da caminhada, ou, ainda, porque o coração humano é assim mesmo: sedento de superioridade, de privilégios e de mandar. A resposta de Jesus reafirma sua escolha e seu estilo de vida, tão diferente e questionador: Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado? (v. 38). O cálice do qual fala Jesus é o cálice da amargura e do sofrimento que Ele beberá no momento de sua paixão e morte; o batismo deve ser entendido no significado originário da palavra, isto é, imersão, ir até o fundo: para Jesus se trata da fidelidade até o fim, até a morte e morte de cruz (cf. Fil 2). Jesus pergunta aos dois se estão dispostos a isso, isto é, a enfrentar sofrimento e morte para realizar esse objetivo. E eles, um pouco superficialmente, respondem que sim. Um dia eles, de fato, enfrentarão a morte, mas será preciso, ainda, percorrer muita estrada para compreender e viver o que agora afirmam. Jesus responde que qualquer decisão última, no que se refere à salvação, depende do Pai, como para dizer que a glória do Reino de Deus não pode ser vista como um direito, mas é um dom da bondade e justiça de Deus, sempre fiel às suas promessas. Nesse momento, eis que os outros apóstolos intervêm, chateados com os dois tão presunçosos. Então Jesus colhe a ocasião para dar um importante ensinamento: em sua ‘família’, autoridade e poder não devem ser exercidos como fazem os chefes das nações e os grandes que oprimem e tiranizam. Seus seguidores devem fazer a diferença: entre vós não deve ser assim; eles devem imitar o Filho do Homem que veio não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos (v. 45). Esse versículo pode ser considerado um dos mais importantes do evangelho de Marcos, porque, em poucas palavras, resume o sentido da vida e da missão de Jesus e, também, oferece o modelo para o novo estilo de vida de seus seguidores. Uma palavra de Jesus é muito significativa: ele afirma que veio dar a vida em resgate para muitos. A palavra resgate lembra uma praxe jurídica presente no Antigo Testamento: quando alguém se tornava escravo (por dívidas não pagas ou na guerra), o parente próximo devia providenciar para o resgate. Isso Deus fez com o seu povo escravo no Egito quando o libertou da escravidão. O que mais devemos observar não é tanto o ‘preço’ do resgate quanto a atitude de solidariedade. Jesus doa sua vida não para ‘pagar’ o resgate ao demônio para que deixe de dominar sobre a humanidade ou para aplacar a ‘ira’ de Deus, mas para manifestar sua total solidariedade, e carregando sobre si mesmo o pecado, partilhando conosco tudo, ‘exceto o pecado’, (II leitura), morrendo como o grão de trigo (cf. Jo 12,24) e, assim, produzir muitos frutos e para que, doando sua vida, os humanos pudessem ter vida em abundância (cf. Jo 10,10). Nesse sentido, a I leitura (Is 53,10-11), fala do Servo sofredor, que carrega sobre si as culpas do povo e o salva. A carta aos Hebreus (4,14-16: II leitura) apresenta Jesus qual sumo sacerdote que se compadeceu de nossas fraquezas; por isso, precisamos ter fé, e com toda a confiança nos aproximar do trono da graça, para conseguirmos misericórdia. Eis a atitude profunda do coração em nosso relacionamento com Deus, que deve nos orientar e sustentar em nossa caminhada cotidiana.
Dom Armando