OS 17 VÍRUS DO AMOR

Por que, às vezes, amores que começaram tão brilhante­mente acabam morrendo? O que fez esgotar o amor e começar, na vida do ca­sal, brigas, incompreensões, traições... até chegar à extinção do amor?Responder não é fácil. As razões são tantas e cada história é única. Mas, com a ajuda da psicologia e da experiência, é possível detectar alguns vírus que, aos poucos, levam ao fim do amor.

Muito útil a este respeito é a leitura do livro de Tobias (todo casal cris­tão de­veria meditá-lo bastante antes do Casamento!). Encontramos nele a história do jovem Tobias, filho de Tobit que vive em exílio a Nínive. Tobias, conduzido pelo anjo Rafael, realiza o desejo do pai: pro­curar uma esposa que seja da mesma família. Depois de muitas peri­pécias, Tobias chega a Ecbátana onde mora Sara, filha de Raguel, pa­rente de Tobit. Esta jovem na noite do Casamento viu morrer, pelo demônio Asmodeu, sete ma­ridos. O mesmo não acontecerá com Tobias porque, orien­tado por Rafael, ele vencerá o inimigo e conseguirá voltar levando a esposa e, também, o remédio para curar a cegueira do pai.
Perguntemo-nos: qual sentido pode ter a atuação mortal deste Asmo­deu? Hoje em dia, de quais semblantes ele se reveste para ‘matar o amor’?
Tendo como pano de fundo este livro, vamos procurar e dar nomes às causas de morte do amor[1]. Cada um(a) reflita por tempo e... procure o remé­dio mais adapto. No livro da Bíblia, o anjo Rafael manda Tobias agarrar um grande peixe que queria devorar-lhe o pé para tirar dele o fel, o coração e o fígado: no momento certo lhe serviria para vencer o inimigo! Hoje, onde e como encontrar remédios para se defender dos inimigos que matam o amor?
1.    Relacionamento não igualitário. Ho­mem e mulher têm igual dignidade e, nas diferenças dos corpos e da sensibilidade, fundamenta-se e gera-se a ri­queza e a beleza do amor (a Bíblia o diz desde o início: cf. Gn 2,18-24). Mas... nem sempre isso é fácil. Existe, às vezes, um que pretende prevalecer o outro, do­minar e abafar o ou­tro. Pode ser o homem que pretende mandar e sempre decidir e ter razão; ou pode ser ela. Aos poucos, quem for ‘abafado’ em sua personalidade acumula raiva, tensão, rejeição e sentimentos de vingança até... explodir. Oportuno seria ‘monito­rar’ a relação e as reações, deixando que ele (ela) também possa crescer e não ser somente, e sempre, você que decide e manda.
2.    Relacionamento simbiótico, isto é, ‘fuso e confuso’. Acontece quando um dos dois está tão envolvido com o outro que não consegue mais pensar com a sua cabeça nem agir independente do outro. Ser diferente e ter próprias ideias é algo positivo e enriquecedor. Perder sua identidade e se anular... levará, aos poucos, à morte do amor, como a água parada que ... apodrece.
3.    ESTREITA DEPENDÊNCIA DA FAMÍLIA DE ORIGEM. Chama-se ‘satelitização’ a dependência excessiva da família, o que impede ao filho (à filha) tornar-se autônomo, independente no sentido afetivo. Por causas diferen­tes e complexas, às vezes, os pais mantém o(a) filho(a) tão li­gado(a) a si mesmos que qualquer homem (ou mulher) que entre na vida dele (dela) é visto como ‘concorrente’. Isso gera um ‘senso de culpa’ nele (nela) pelo fato de que “não amaria bas­tante os pais” por amar alguém ‘fora do núcleo’ (satélite). Para casar é preciso se ‘de-satelitizar’, adquirindo liberdade com responsabilidade: “o homem deixa seu pai e sua mãe e se ume à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24). A alegria dos pais é criar filhos que se tornam independentes e sabem ‘caminhar com as próprias pernas’.
4.    NÓS DOIS E BASTA! Acontece quando o casal se fecha, ‘corta’ os amigos e não tem outros interesses fora de si mesmo. É como uma árvore à qual foram cortadas as raízes. “Você me encontrou quando trabalhava na comunidade”, diz ela a ele que faz de tudo para impedi-la de continuar com seus compromissos na comunidade eclesial. Ele quer que ela deixe tudo porque “só ele deveria bastar-lhe”. Mas... não está certo! As amizades sinceras, os encontros com as diferentes realidades sociais e eclesiais, os interesses culturais etc. estimulam e enriquecem a vida familiar, quando vividos com equilíbrio e cumprindo com as obrigações familiares.
5.    relações sexuais prÉ-matrimoniais. “Se você me ama, demonstre”, diz o namorado à namorada - há pouco tempo - para que entenda que quer ter relações sexuais. Dá para lembrar o que canta Pe. Zezinho em sua música Laranja lima. Conhece? Leia com atenção!
1.     “Andei pensando na sua proposta de fazer amor antes do Casamento. Você me diz que não faz diferença, quase ninguém pensa e todo mundo faz.
- E eu lhe respondo que pensei bastante, e não fiz pouco caso de seus sentimentos; mas lhe confesso que esta história boba, de imitar os outros me tirou a paz.
Laranja Lima também é doce no momento, mas logo após tem gosto amargo até demais. Quando um casal apressa este sentimento, o gosto amargo é da mulher que sofre mais.
2. Você me diz que não tem paciência, que esperou bastante e vive agoniado. E que hoje em dia quem se guarda muito, fica pra titia e acaba em solidão.
- E eu lhe respondo que não é por medo, nem por covardia ou só por ser pecado; eu gostaria que você soubesse que eu tenho o direito de ter uma ilusão.
3.  Seu sonho é curto e grosso e bem rasteiro: quer ser meu parceiro, tem que ser agora. E me repete que eu sou atrasada, e vivo do passado e que a moral mudou.
- E eu lhe respondo que o meu sonho é outro: quero ter você, mas tenho a minha hora. No seu relógio toda hora é hora, mas no meu relógio a hora não chegou.

Então, o que acham desta ‘mensagem’? Este comportamento revela algo não verdadeiro no relacionamento entre os dois, isto é, com o corpo dizem que se amam completamente, alma e corpo, que entregam não só os corpos, mas a totalidade de suas vidas; entretanto, ainda não existe este amadureci­mento nem este compromisso. Permanecem em nível da sexualidade e não da mente e do eu mais profundo que é o nível capaz de sustentar uma vida de doação recíproca. Quem não amadureceu esta dimensão e não sabe viver a relação com a mulher acolhida não só como ‘corpo’ mas como pessoa... terá dificuldade - depois do Casamento - em se relacionar de forma diferente. A mulher é chamada a ‘tornar virgem’ o homem, isto é, a lhe ensinar a não se concentrar só na dimensão física e dos impulsos sexuais, e amadurecer outras dimensões da mente e do coração. A você mulher a tarefa (missão) de ajudar, com delicadeza e firmeza seu companheiro a sentir tudo isso. Não aceite de ser um ‘objeto’ (laranja lima), mas afirme-se como pessoa! O que hoje semeia(m), amanhã vai / vão recolher. Portanto, ‘não comecem construir a casa pelo telhado’! Cada coisa tem seu tempo certo.
6.    COMUNICAÇÃO AMBÍGUA. Nós comunicamos não só com a língua, mas com o corpo todo. Para uma boa comunicação é preciso que entre os dois níveis não haja contradição. Por exemplo, se digo para alguém: “eu te amo”, mas depois faço algo que o contradiz ou nunca faço o que poderia confirmá-lo (uma flor, um sorriso, um gesto de gratuidade etc.), a mensagem fica ‘ambígua’. Então a outra pessoa fica perdida, não entende e acaba se destruindo. Este comportamento revela grande imaturidade e o relacionamento não tem alicerce para se sustentar, ao menos que o casal não reconheça o problema e peça ajuda.
7.    PapÉis (diferentes) no amar. Cada um(a) tem a capacidade de amar como filho(a), como esposo(a), ou como pai (mãe). Trata-se de sentimentos diferentes que crescem no mesmo coração. O que acontece, às vezes? Por algum bloqueio no amadurecimento psicológico ele (ela) ainda procura no relacionamento amoroso um dos pais. Mas... você não deve fazer o papel de ‘mãe’ de seu namorado (nem vice-versa). Trata-se de papéis diferentes. Isso acontece, sobretudo, nas mulheres quando pretendem ser as ‘salvadoras’ das situações difíceis. Se isso acontecer, num amanhã - ou já hoje - será um... desastre. O homem sentir-se-á um Zé-ninguém, tanto ela decide, resolve e faz ... até a mãe dele!
8.    ame-se a si mesmo(a)! Você se conhece e se ama bastante? Isso parece fácil, mas não é. Veja como existem (muitas) pessoas que vivem constantemente se comparando aos outros e se sentido um trapo (ou algo parecido) por não ser ‘como’ os outros. Mas cada um(a) é ‘original’. Então, não viva numa constante comparação ou, pior, competição. Conheça suas qualidades (e defeitos) e viva bem, melhorando as primeiras (e... consertando os segundos). Deus nos fez e quer ‘semelhantes a Ele’ e pede que sejamos ‘perfeitos como o Pai que está no céu’ (confira Mateus 5,48): já pensou?!. Quem não se sente amado, nunca saberá amar (ninguém dá o que não tem) e ....‘como pode uma pessoa amar alguém que não se sabe amar? Então, não perca tempo e não desperdice energias, mas use-as para crescer e se amar como Deus te ama.
9.    COMPLEXO DE ONIPOTÊNCIA. Encontram-se pessoas que se acham... onipotentes, que sabem e podem tudo. Ninguém é melhor do que elas. Ai criticá-las e contrariá-las; ficam uma fera. Por trás, existe algo tipo imaturidade e pouca (verdadeira) auto-estima. Estes sujeitos contam cada história em que confundem verdade e realidade com fantasias e... mentiras. Imagina como poderá alguém viver com pessoas tão imaturas? Namoro serve para se conhecer e se corrigir (até quando tiver tempo e possibilidade).
10.    FERIDAS DE ABANDONO. Trata-se da situação de quem viveu uma experiência de abandono (ex. morte ou separação dos pais, nascimento de um irmão etc.). A criança pensa (muitas vezes isso se dá em nível do subconsciente): “eu perdi o ‘objeto’ do meu amor porque não cuidei bastante”. E elabora um mecanismo ‘perverso’ que o faz ‘zelar demais’ da pessoa amada. Se este ‘mecanismo’ se estruturar, eis que se gera o ciúme doentio que leva ao controle do outro até... sufocá-lo e colocá-lo constantemente à prova para averiguar ‘se ele me ama de verdade’, porque o sujeito não se considera amável e nem se sabe amar. Isso, porém, não é amor, mas doença que precisa de cura; caso contrário o fracasso será inevitável.
11.    EXCESSO DE TRABALHO. Trabalhar é preciso (ai do contrário: como vai viver?). Mas, tem um limite. Se ele (ela) vive só trabalhando e todas as energias psicofísicas são consumidas nesta direção, então, como poderá ter força suficiente para um relacionamento de amor? Deixará só as... migalhas e... não dá mesmo para sobreviver. Examine-se: por que pretende trabalhar tanto? Onde pretende chegar? Neste caso, fique com seu trabalho e deixe o namoro!
12.    DE UMA PARA OUTRA HISTÓRIA DE AMOR. Acontece que um velho e apaixonado namoro acabou de vez. Um grande vazio e uma intensa ferida permanecem. Como superar tudo isso? Muitos se embarcam logo numa ‘outra história de amor’, com diferentes razões e atitudes. Será que dará certo? É bastante difícil até que o ‘fantasma’ do(a) outro(a) continue vivo e presente em sua mente e você não parou para ver e compreender por que isso acontece, e aceitar o que aconteceu, tirando desta história passada o que de positivo lhe ensinou. Se não, poderá se encaminhar para outro fracasso.
13.    NEM TODO SILÊNCIO É DE OURO.  Na vida podem ter acontecido fatos negativos que incomodam e se prefere nem relembrar. Colocam-se no esquecimento e se cobrem de silêncios que não são de ouro, mas que servem para acobertar. Isso... até quando? Por que não falar com clareza, no momento certo? O passado nos acompanha e condiciona. Aceitá-lo e assumi-lo é a forma melhor para enfrentar o futuro. Claro, você - se ama - nunca jogará na cara do outro este incômodo passado que ele (ela) lhe entregou como um peso e uma ferida para que você o acolha com respeito, carinho e amor!
14.    (dEs)HARMONIA CORPÓREA E SEXUAL. Experiências sexuais negativas, violências em nível físico ou maus tratos podem gerar - sobretudo na mulher - uma reação negativa e até rejeição de qualquer contato físico, provocando não prazer, mas maior fechamento e desajuste emocional. Pode existir, também, uma não aceitação do próprio corpo, com emoções e sentimentos oscilantes. Nestes casos é preciso muita delicadeza, respeito e carinho - às vezes é necessária a ajuda de um especialista - para curar estas feridas para que não causem outros desajustes e o contato físico seja vivido como expressão de ternura e de amor.
15.    UM EU FRACO, REGREDIDO E MISTIFICADO.  A todo dia a propaganda bombardeia apresentando pessoas de rara beleza, de vida brilhante, de fama e sucesso. Quem pode competir? O consumismo exacerbado entra em contraste com a realidade cotidiana. Acrescentam-se decepções, fadigas, conflitos etc. e a confusão mental é completa. Se, ainda mais, na vida por várias causas e razões, entram as drogas (lícitas e não), então o caminho que leva à morte do amor (e não só) já está bem avançado. A quem recorrer? Em todo canto encontram-se magos e seitas, milagreiros e feiticeiros prontos a dar fáceis receitas. É melhor desconfiar! Estas situações não se resolvem a toque de mágica. É necessário esforço, ajuda de quem é competente no assunto e curas não ingênuas e superficiais. O alívio do momento não resolve e se você não descer no fundo do seu eu, querer com todas as suas forças e aceitar, pouco a pouco, se levantar e sair dessa... então, também o (incerto) amor, morrerá. “Sem uma clara identidade a pessoa cai ou na dependência (de algo ou de alguém) ou na subjeção e no medo, alerta o grande psicólogo Erik Eriksion.
16.    PERSONALIDADE NEURÓTICA. Quando uma pessoa adulta se comporta como criança e não adquiriu personalidade adulta, livre e responsável, estamos no caminho da neurose. Estas mantêm a pessoa amarrada às feridas da infância. Nas diferentes situações e relações a pessoa fica ligada nos traumas da sua infância e (inconscientemente) ‘interpreta’ tudo naquela ‘luz’. As neuroses podem nascer, também, reprimindo os conflitos, não os encarando! Por ex.: pelo fato de que não aceito minha vulnerabilidade, então, ‘vou ficar insensível’! E, deste modo, também ficará frio, insensível em tudo! Outro ex.: não aceitando o fato da doença e da morte, então, com fantasia de onipotência e imortalidade ou, ao contrário, a pessoa se tona ‘hipocondríaca’, vê em tudo ameaça à sua saúde! Mas, estas são só fantasias que conduzem a uma vida Como, então, construir relações estáveis de amor nesta situação? É preciso a ajuda de algum especialista e aceitar a ‘cura’ em busca do amadurecimento e equilíbrio da própria personalidade para conseguir relacionamentos sólidos. Fora disso não tem saídas para uma família serena, equilibrada e estável.
17.    DISPARIDADE DE VALORES. Suponhamos que ele esteja ligado ao futebol ou às festas e farras mais do que à vida social e eclesial. Ela, ao invés, desde pequena, tem abertura aos outros, é muito sensível às causas sociais, é culturalmente atenta a tudo o que acontece ao seu redor, participa com convicção da vida de sua Igreja. Como será a convivência dos dois depois do casamento? Quem dará um passo para se aproximar do outro? Em qual direção? Se não for amadurecido não só a aceitação superficial do “mundo de valores” que dá sentido à vida dos dois enquanto casal... eis que o Casamento poderá passar por muitas dificuldades até... morrer, por causa de ‘valores diferentes’.
Não são apenas estas as causas de morte do amor. Outras existem. Aqui apresentamos alguns exemplos para que cada um(a) aprenda a analisar sua vida mais profundamente e não fique só em busca de soluções mágicas e superficiais que ‘magos’ de diferentes origens propõem!
Lembre-se que é suficiente uma só destas doenças para matar um relacionamento! Talvez, agora, poderá entender por que muitas Relações amorosas e Casamentos fracassam. As causas consideradas são como um câncer que, aos poucos, cresce e leva à morte se não intervir por tempo: “melhor prevenir do que remediar”. Nem adianta ignorar ou procurar curas inadequadas ou acreditar nas promessas ilusórias ou nos diferentes Viagras que pretendem sarar feridas profundas e imaturidades congênitas. Outro é o caminho.
Oferecemos algumas orientações. Continue(m) sua busca e reflexão. Os cristãos saibam que encontram ajuda, também, na oração e numa verdadeira e profunda espiritualidade que se alimenta com tempos de abastecimento interior, fidelidade na vida de casal, diálogo sincero, abertura aos outros e à Comunidade e escuta constante e orante da Palavra de Deus.




[1] Para estas reflexões nos inspiramos num texto do Pe. G. MARINI: L’amore: um nome, um volto. In cammino con i fidanzati (O amor: um nome, um rosto. A caminho com os noivos).