HOMILIA DE DOM ARMANDO NA ORDENAÇÃO DIACONAL DE GONÇALO


ORDENAÇÃO DIACONAL DE GONÇALO ARANHA dos SANTOS
Leituras: Jr 1,4-9; Sl 99(100); I Tm 4,12-16; Jo 15,9-17.
HOMILIA
Queridos Padres, amados Religiosos e amadas Religiosas, diletos Seminaristas prezados irmãos e irmãs de nossa Diocese e provindo de outras Igrejas: a todos desejo graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Destaco e acolho com coração alegre de maneira especial a você, meu querido Gonçalo, junto com sua família, seu pai Antônio, sua mãe d. Nice, irmãs, avós e familiares todos.
“Que ninguém despreze a tua jovem idade. Quanto a ti, sê para os fieis um modelo na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na pureza”. Assim ouvimos na carta de Paulo ao amado Timóteo. A ele, logo recorda do “dom da graça que há em ti”. Hoje este dom está sendo-te conferido “pela imposição das mãos”. Continua assim na Igreja a entrega do ministerio, isto é, de um serviço para a construção da Igreja na fé e na caridade.
As virtudes que Paulo enumera, traçam o estilo de vida que deve distinguir quem na Igreja é escolhido para estar à frente dos irmãos, fortalecer os vacilantes e orientar os que buscam. Insiste Paulo: “Sê um modelo”! Como para dizer: “Fale a sua vida antes, mais do que as suas palavras”. Afirmava o papa Paulo VI em sua Exortação Evangelii nuntiandi e o Documento de Aparecida retoma: “Oxalá o mundo atual... possa receber a Boa Nova, não através de evangelizadores tristes e desalentos, impacientes ou ansiosos, mas através de ministros do Evangelho, cuja vida irradia o fervor de quem recebeu, antes de tudo em si mesmos, a alegria de Cristo e aceitam consagrar sua vida à tarefa de anunciar o Reino de Deus e implantar a Igreja no mundo” (DAp 552 = EN 80). E termina Aparecida: “Recuperemos o valor e a audácia apostólicos”.
Grande responsabilidade mas como é bonito e fecundo um servidor do Evangelho, sobretudo se revestido oficialmente do ministerio, que se coloca com disponibilidade que transparece de seu rosto e impregna todo seu ser! Quem vive assim seu serviço apostólico e sente sobre si o amor delicado e tenro do Senhor, com certeza não vai precisar procurar sucesso humano buscando-o na mídia, na política, na acumulação de bens materiais ou na promoção social.
Ponto de partida e elemento de segurança é sentir-se escolhido como Jeremias: “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci, antes que saísses do seio, eu te consagrei”. Então, não nada de desculpas ou fugas; não diga: “Eu não sei falar porque sou ainda uma criança”; ele lhe responderá: “Não temas”! Meu querido Gonçalo isso lhe repito para que fique gravado em seu coração. O ministerio, desde este primeiro degrau que hoje recebe, não é escolha humana nem fácil de se exercer. Temos, porém, uma palavra que nos dá coragem e ampara: Eu estou contigo para te salvar. Ao longo de sua vida você, com certeza, terá a possibilidade de experimentar o sentido concreto destas palavras. E sabemos que provêm de um profeta que teve uma vida duríssima, mas que soube resistir, inflamado por uma experiência de fogo e amparado na certeza da escolha por parte do Senhor.
Uma palavra ainda mais significativa e forte encontramos na conversa de Jesus durante a Ceia de despedida. O discípulo amado faz memória daqueles momentos de intensíssima intimidade e recorda as palavras de Jesus: Como o Pai me amou também eu vos amei. O rosto do Deus invisível tornou-se visível agora no amor de Jesus. Quem me vê, vê o Pai (Jo 14,9). Como acolher este amor e como mantê-lo intenso em nós? Insiste Jesus, sozinhos não terão a capacidade. Mas virá o Paráclito, o Consolador, que permanecerá com vocês para sempre.
Então os discípulos conseguirão viver na fidelidade: Permanecei em meu amor. Se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor. Observa-se uma insistência no permanecer. Paulo, também, insiste com Timóteo: Persevera nestas disposições. Podemos colher algo muito importante, que testemunha ao mesmo tempo a fidelidade de Deus e nossa fragilidade. E a necessidade da vigilância, para alimentar a vocação a todo dia.
Em minha vida e experiência ministerial conheci tantos vocacionados, padres, religiosos e religiosas, líderes de comunidade e grupos. Perguntei-me, tantas vezes, por que aquele rapaz, aquela moça, aquele ministro da Igreja, a um certo ponto, trilhou outros caminhos, deixou-se envolver por outros apelos e não resistiu na fidelidade prometida? O mesmo vale por tantos que, no casamento, prometeram amor ‘para sempre’ e, às vezes tão rapidamente, este amor derreteu. Assim, promessas, empenhos, ideais e construções fascinantes acabaram jogados na lixeira! Que mistério a vida humana. Ninguém, porém, fique julgando por que “quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair” (I Cor 10,12)!
Precisamos, então, nos perguntar: “Como ter firmeza nas escolhas? Como alimentar e sustentar nossa fidelidade? Quais convicções interiores e suportes humanos e espirituais precisamos ter para não cairmos na tentação e sermos coerentes com nossas opções fundamentais de vida?
Não é nem fácil nem sintético responder. Cada história de vida é única e só Deus conhece os corações humanos. Seja-me permitido, todavia, acrescentar alguns pensamentos à luz da experiência e da Palavra.
Antes de tudo, procurar viver com plena fidelidade ‘só por hoje’. No bem e no mal caminhamos com passos lentos. Avaliemos, à noite, antes de deitar, qual foi o grau de nossa fidelidade no hoje de nossa vida e, outra exigência: sejamos sinceros conosco mesmos. Se houver pequena infidelidade, sejamos firmes em reafirmar nossa opção de vida. As grandes escolhas se alimentam de pequenos ‘sins’ ou ‘nãos’ pronunciados cotidianamente.
. Toda amizade deve ser cultivada e alimentada. Também a amizade com Jesus: através da leitura orante da Palavra, na vivência eclesial, no encontro por meio dos sacramentos da fé, na transparência da vida, no cultivo de amizades sadias e maduras. “O seguimento – afirma o documento de Aparecida (277) - é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o que o conduz e acompanha”.
Daqui a pouco irei lhe perguntar, querido Gonçalo: “Queres desempenhar, com humildade e amor, o ministério dos Diáconos“? “Queres guardar o mistério da fé”? “Queres guardar para sempre o celibato em sinal de teu coração consagrado ao Cristo Senhor”? Ainda: “Queres perseverar e progredir no espírito de oração”? e “Queres imitar sempre, na tua vida, o exemplo do Cristo”? Perguntas profundas e respostas exigentes! Responder ‘sim’ com suficiente consciência e maturidade, abertos a crescerem a todo dia nesta direção, é o que fará de você e de cada um(a) dentro de sua vocação, pessoa capaz de fidelidade. Insisto na sinceridade, na humildade e na busca constante. A oração, vivida como amizade íntima, pessoal e eclesial, que encontra na Eucaristia seu ponto alto e sua fonte, será a força para viver com Jesus, como Jesus e para Jesus: não existe amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos.
Diácono quer dizer servo. Mas Ele acrescentou; Já não vos chamo servos... mas amigos porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer. Nesta intimidade e disponibilidade, interior e externa, humilde e sincera, com Jesus, tenho certeza que você saberá desempenhar com alegria e fé o seu serviço, hoje e amanhã e produzirá muito fruto e fruto que permaneça. Esta a promessa de Jesus.
Isso lhe desejo, meu querido filho. Por isso convido a todos a orarem pelo nosso querido Gonçalo e pelos nossos seminaristas e ministros ordenados da Igreja para que sejamos fieis no serviço que da Igreja recebemos e para o qual hoje e a todo dia queremos viver, com a graça do Senhor.