2° Domingo da Quaresma - Ano B


Leituras:
Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18
Salmo 115
Rm 8, 31b-34
Mc 9,2-10
 

“Escutai o que Ele diz!” (Mc 9,7)

Interpelados pelo ardente desejo de arrependimento, conversão e mudança de vida, para abraçar a vida nova em Cristo, chegamos ao 2º domingo da Quaresma. Preparando-nos para a vivência do mistério pascal acolhamos a Palavra de Deus, reconhecendo na arte da escuta a abertura para revigorar nossa fé em Cristo. No episódio da Transfiguração do Senhor (Mc 9,2-10) experimentamos uma antecipação da glória da ressurreição, ao passo que assumimos uma vida operativa na presença de Deus, acolhendo a mensagem de Jesus no caminho da cruz e percebendo os aspectos da sua Pessoa em nossa existência.

Pela revelação divina, Jesus é apresentado aos três discípulos (Pedro, Tiago e João) como o Filho amado esplendente de luz. Isso, porém, não se limita ao Seu aspecto glorioso porque o verdadeiro Messias só é conhecido através da paixão e morte. Além disso, a glória não elimina a condição humana de Jesus. Desse modo, a novidade da existência cristã e da acolhida do Reino de Deus, na lógica do evangelista Marcos, possibilita-nos compreender que a transfiguração precede a Cruz e a Ressurreição, para mostrar que a vinda do Reino não é uma realidade exclusivamente posterior, mas já está dentro da existência.

A partir da experiência inspiradora feita pelos três apóstolos, os mesmos que testemunham a ação de Jesus em momentos particularmente importantes como a ressurreição da Filha de Jairo (Mc 5,40) e a oração de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33), somos convocados para a experiência da escuta. A voz que ecoa da nuvem confirma a certeza da nossa fé: “Este é o meu filho amado. Escutai o que Ele diz” (Mc 9,7). Escutar não é somente ouvir, mas comprometer-se a colocar em prática o que foi dito. Quando Jesus nos pede para amar, perdoar, acolher, visitar ou evangelizar, nossa resposta precisa ser concreta. Caso contrário, não seremos discípulos e discípulas Dele.

No alto da montanha – biblicamente, o lugar da manifestação divina, onde o ser humano entra em intimidade com Deus – os apóstolos contemplam Jesus na sua forma resplandecente de glória. Impelidos pelo Evangelho não podemos viver na lógica consumista cercada de prazer e euforia, reduzindo a vida às realizações pessoal e profissional. Deixemos que nossa vida se projete segundo a vontade de Deus.

É para esta vida que Jesus se transfigura, numa perfeita metamorfose, a ponto de assumir a brancura como sinal claro da luz de Deus. A cor branca recorda a presença divina e nos faz compreender o quanto a entrega de Jesus faz parte do plano salvífico de Deus.  Mas isso não retira o sofrimento. Aliás, Elias e Moisés aparecem para recordar o que as profecias e a Lei declaram sobre o Messias. Elias é o profeta precedente ao Dia do Senhor (Ml 3,22-24) e Moisés é o modelo de profeta, conforme Deus prometera em Dt 18,15.

Além disso, o testemunho de Abraão evidencia a confiança incondicional em Deus. Abraão abre mão do controle de sua vida para recebê-la como graça. No sacrifício de Isaac, sabe escutar a voz de Deus, permite que Sua mensagem ressoe na concretude da vida; por isso, Deus não o abandona. Se Abraão se manteve firme por sua fé, quanto mais Deus na sua promessa, cujo amor é inesgotável (Rm 8, 31b-34)? O mistério da cruz é prefigurado na primeira leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18). Jesus, descendente de Abraão segundo a carne, no sacrifício da cruz garante a salvação ao mundo inteiro, cumprindo a promessa feita por Deus a Abraão – “Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedecestes” (Gn 22,18).

E nós, estamos dispostos a escutar a voz de Deus como Moisés? “Precisamos nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade” (Papa Francisco). Em nossas comunidades eclesiais escutamos com atenção o Evangelho, nossos pastores, nossos agentes de pastorais e todos que querem falar?

Que ao guardar na memória a experiência da transfiguração e a prova de fé de Abraão, saibamos escutar com qualidade e reconhecer que a voz de Deus implica acolher a realidade da cruz. Sem cruz não há glória; sem escuta não há diálogo. Portanto, sejamos obedientes a voz do Senhor. Escutá-Lo dá novo vigor à nossa fé.

Marcos Bento
4º Teologia



Primeira reunião do Conselho de Pastoral Diocesano

No próximo final de semana, representantes das paróquias, pastorais e movimentos da Diocese, o Clero, os religiosos e religiosas estarão reunidos no Centro Diocesano de Livramento, sob a presidência do Bispo Diocesano, D. Armando, para a primeira Reunião do Conselho de Pastoral Diocesano (CPD).

O encontro terá início na sexta-feira (23/02) e se encerrará no domingo (25/02), às 12h. Neste encontro será debatido o projeto de evangelização diocesano, se apresentará a programação de atividades de cada pastoral, bem como serão propostos momentos de partilha e avaliação da caminhada pastoral das paróquias da nossa diocese.

Desde já estejamos unidos em oração para o bom êxito desse encontro!

Reunião do CPP na Paróquia de Piatã

A Paróquia do Senhor Bom Jesus de Piatã realizou o encontro do CPP no sábado, dia 10/02. Os coordenadores de comunidades, pastorais, grupos e movimentos, junto ao bispo diocesano, Dom Armando, Pe. Samuel, Pe. Gilvanio e Pe. Alberto, refletiram sobre a caminhada pastoral, avaliando e tomando decisões importantes para o seguimento do trabalho de evangelização. 

Dom Armando insistiu nas três palavras que norteiam seu ministério episcopal: evangelização, formação e organização. Na pauta também foi contemplado o ano nacional do laicato, a campanha da fraternidade, os trabalhos da pastoral do dízimo e a prestação de contas anual 2017. O encontro foi encerrado com o almoço partilhado na casa Paroquial.

Giro pela Diocese - Fevereiro

Dom Armando visitou várias comunidades da diocese, reunindo-se com Jovens e Adultos para celebração do Sacramento da Confirmação. Esteve na comunidade Canabravinha, em Paramirim e nas comunidades de Barra e Cachoeirinha da Paróquia de Érico Cardoso. Na Paróquia Santa Luzia de Ibipitanga, celebrou nas comunidades Jurema e Encantada no dia 06/02. Visitou a comunidade Itapicuru dos Batista da Paróquia Bom Jesus do Taquari, dia 08/02, e no dia 15/02 esteve na comunidade Sumidouro da cidade de Piatã. 

 


Para todos é sempre um motivo de muita alegria acolher os jovens na comunidade pelo sacramento da Crisma. Que a vivência desse sacramento anime e fortaleça a caminhada das comunidades.


Apresentação do Novo Administrador das Paróquias de Iramaia e Tanhaçu


Tendo o Pe. Gilberto assumido a função de Reitor da Casa de Formação D. Hélio Paschoal, em Belo Horizonte, o Bispo Diocesano, D. Armando, para atender às necessidades pastorais das Paróquias de Santo Antônio de Iramaia e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de Tanhaçu nomeou o Pe. Jandir administrador paroquial dessas duas comunidades. A celebração  de apresentação do novo administrador aconteceu no dia 11 de fevereiro. 

Na ocasião os fiéis de cada paróquia manifestaram gratidão ao Pe. Gilberto pelo serviço desempenhado com empenho desejando sucesso em sua nova missão. Ao mesmo tempo, saudaram o novo administrador paroquial, com quem já haviam partilhado uma caminhada pastoral pois o mesmo exerceu o ministério diaconal nessas paróquias.


1° Domingo da Quaresma - Ano B

Leituras:

Gn 9,8-15
Salmo 24(25)
1Pd 3,18-22
Mc 1, 12-15
 
“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12)
 
Ao iniciarmos a Quaresma, um lugar que continuamente será citado e que vai aparecer com frequência nos textos, reflexões e orações, é o “deserto”. Deserto que deve fazer parte de nossas vidas em algum momento: espaço de escuta e de silêncio, de busca, de despojamento; lugar que nos faz tomar consciência das coisas essenciais que dão sentido à nossa existência; ambiente privilegiado para o encontro tu a tu com o Deus amor que nos habita, ou melhor, em Quem habitamos. Se nos abrirmos à Sua presença amorosa, caminharemos livres dos falsos absolutos que cada dia nos tentam, e nossos desertos existenciais se converterão em um jardim onde florescerá de novo a esperança.

Como seres humanos, de tempos em tempos precisamos passar por experiências de despojamento, de esvaziamento, de vulnerabilidade, de crise..., para poder suavizar nosso coração e, desse modo, fazer-nos mais receptivos e expansivos.

O “deserto” é o lugar das perguntas, do discernimento, da busca de profundidade, o ambiente favorável que nos oferece ferramentas com as quais poder romper as bolhas que nos aprisionam, impedindo-nos sair para a aventura da vida. [...]

Num mundo em que a imagem e as redes sociais ocupam, com suas presenças, toda a nossa vida, todos os nossos lares, os espaços públicos, fazendo-nos viver a cultura da superficialidade, muitas pessoas de diferentes condições sociais e religiosas já começam a sentir a urgente necessidade de escapar de tanta solicitação externa que as oprime e alimentam o desejo de se ocupar mais decididamente com o seu mundo interior. Mas, se somos sinceros, adentrar-nos em nosso “eu profundo” e viver a partir de dentro é algo que não sabemos e muitas vezes até sentimos medo. É cada vez mais difícil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o mundo exterior.

Nesse sentido, a liturgia quaresmal revela-se como uma mediação privilegiada para potencializar nossa interioridade, ou destravá-la, para que a expansão de nossa vida seja possível. Tal experiência resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez. Ela oxigena a nossa mente e implode nosso conformismo; revela-se instigadora e provocativa, fonte inspiradora que nos liberta do cárcere da rotina. Ela nos faz lembrar que somos andarilhos, deslocando-nos no traçado da existência em busca de respostas que dêem sentido à nossa existência.

O caminho para Deus passa pela experiência mais profunda e autêntica de si mesmo, convidando cada um a repensar como, em meio às dificuldades de cada tempo, sempre é possível o percurso em direção à própria interioridade. [...]

Foi no deserto onde Jesus descobriu o que move verdadeiramente o coração do ser humano. Foi nessa situação – de solidão – onde também descobriu o que Deus ama no coração humano. Nessa experiência de deserto Jesus tomou consciência de duas forças ou dinamismos que atuam no coração humano: um de expansão, de saída de si, de vida aberta e em sintonia com o Pai e com os outros; outro, de retração, de auto-centração, de busca de poder, prestígio, vaidade...

Jesus viveu impulsionado pelo Espírito, mas sentiu em sua própria carne as forças do mal: “foi tentado por satanás”; satanás significa “o adversário”, a força hostil a Deus e a quem trabalha por seu reinado. Na tentação de Jesus se des-vela o que há em nós de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça. Qual dos dois dinamismos internos alimentamos?

O evangelista Marcos ressalta que o “deserto” não é só um lugar geográfico; é também o lugar que buscamos para nos silenciar e nos oferecer a oportunidade para reconectar conscientemente com nosso centro. Em todo processo de crescimento, e mais ainda nos períodos críticos do mesmo, vamos nos deparar com a presença dos “animais selvagens” e dos “anjos” em nosso eu profundo.

É assim que nomeamos as experiências que acontecem quando nos adentramos em nosso mundo interior. Os “animais selvagens” são aquelas circunstâncias internas e que nos frustram e, sobretudo, aquele material psíquico que não reconhecemos ou aceitamos em nosso interior: nossas paixões, nossos traumas, nossas feridas, nossos instintos, nossa impotência e fragilidade... É a “sombra” que vamos arrastando, e que continua nos assustando enquanto não a reconhecemos e a abraçamos abertamente em sua totalidade.

Os “anjos” são os consolos – externos e internos – que aparecem em nosso caminho, em forma de paz, de luz, compreensão, de fortaleza, de amor...

“Animais selvagens e anjos” cumprem seu papel, pois nos “obrigam” a avançar para nossa verdade profunda, tirando-nos da superfície de nós mesmos, ou talvez da “zona de conforto” na qual tínhamos nos instalado, conformando-nos com uma vida “normótica” e sem criatividade.

O amadurecimento humano implica abraçar toda nossa verdade, também aquela que nos aparece sob disfarces temerosos, como o medo, a solidão, a tristeza, a angústia... Lidar com tais “feras” requer capacidade de olhá-las de frente, com compreensão, paciência e muito afeto. A espiritualidade cristã nos mostra que exatamente em nossas feridas nós descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu”, escondido no fundo de nosso coração.

Tradicionalmente, fomos coagidos a viver uma espiritualidade que nos ensinou a prender os “animais selvagens” e a levantar junto deles um edifício de “grandes ideais”. E com isto, passamos a viver constantemente com medo de que as feras pudessem fugir e nos devorar.

Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendemos, fica nos faltando a sua força, de que temos necessidade para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros. Somos obrigados a fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois poderíamos correr o risco de nos deparar com as feras perigosas.

Quando, graças à presença dos “anjos”, deixarmos de rejeitar e de resistir aos “animais selvagens”, iremos tomando consciência como a luz e a fortaleza vão se expandindo em nosso interior; nós nos perceberemos mais unificados e harmoniosos. E assim, estaremos mais preparados para a “travessia” em direção à Páscoa.















Pe. Adroaldo Palaoro, sj

Créditos: http://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/1215-deserto-tempo-de-des-velamento-interior

AGENDA DO BISPO



FEVEREIRO 2018 - II

Dia
Horas
Onde
Atividade
14
Dia
Casa do Bispo
Atendimento
19.30
Catedral
S. Missa, com bênção e distribuição das cinzas
15
09.00
Casa do Bispo
Atendimento
17.30
Comunidade Sumidouro - Piatã
Confissões, S. Missa com Crisma.
16
08.00
Colégio Várzea Grande – Dom Basílio
Encontro com os alunos
Tarde
Casa do Bispo
Atendimento
19.30
Comunidade São José - Jussiape
Missa com Crisma
17
Manhã
Boninal
Formação Ministros da Palavra do Vicariato
18.00
Candiba
Encontro
18
Dia
Candiba
Celebrações
19
Até o dia 22, em Brasília, CNBB: encontros CONSEP e Conselho Permanente.
22
Tarde
Casa do Bispo
Atendimento
19.00
Comunidade Estocada - Catedral
Encontro Crismandos
23
Manhã
Casa do Bispo
Atendimento
Tarde
(Até domingo 25) Centro diocesano
Conselho Pastoral Diocesano
26
Até o dia 01/03, em Brasília, CNBB: encontro Comissão Episcopal Textos litúrgicos (CETEL)

O JEJUM


O jejum consiste na renúncia voluntária de alimento por um determinado tempo, por motivos religiosos; encontra-se com finalidades e modalidades diferentes, no Hebraísmo, no Cristianismo e no Islã, as três grandes religiões monoteístas, e não só.
Antes de tudo, o jejum cristão não acontece para melhorar a saúde, perder peso ou finalidades semelhantes. Jejuar é sinal de penitência, visa uma mais íntima experiência de Deus, a expiação dos pecados, ou o domínio das paixões e dos instintos. O jejum bíblico, como o jejum dos muçulmanos, no Ramadan, é um meio; tende a purificar o espírito para liberar energias interiores. Não é possível se aproximar de Deus sem uma íntima purificação espiritual. Moisés, Elias e Jesus jejuaram por 40 dias, para estarem à altura da missão, exigente e importante. De Moisés se lê que ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água (Ex 34,28); de Elias se conta que se levantou, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus (1Rs 19, 8). Jesus jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome (Mt 4,2) e enfrentou o diabo que o tentava.
Jesus alerta os seus discípulos para que não pratiquem o jejum só para receber elogios; ao contrário, ensina: Tu quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os outros não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai... (Mt 6,17-18). Jesus se apresenta não como um rigoroso asceta, como foi João Batista. Por isso é criticado e com ele os seus discípulos: Por que ...os teus discípulos não jejuam? (Mt 9,14). A resposta de Jesus é surpreendente: Acaso os convidados do casamento podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão (ib., 15). O jejuar adquire novos sentidos, não está só ligado à renúncia, mas a uma abertura de amor com o Senhor, o Esposo que ama os seus amigos até o ponto mais alto (cf. Jo 13,1).
Na história da Igreja, a proposta do jejum está presente desde o início. Existem dias recomendados para o jejum: sexta e quarta feira, sobretudo; em Roma, também aos sábados. Em alguns períodos da Idade Média, especialmente nos mosteiros, o jejum era rigoroso, só uma refeição diária, na tarde. Mas, mudando os costumes, fica mais branda também a praxe do jejum. São Bento recomendava aos seus monges de moderar os alimentos, durante a Quaresma, e de esperar “a Santa Páscoa com a alegria do desejo espiritual” (Regra, 49).
O Papa Paulo VI, retomando as orientações de SC 110, explica a finalidade dessas práticas penitenciais na realidade social de hoje. Dois dias permanecem como ‘obrigatórios’ para todos os cristãos jejuar: a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa, qual sinal de comunhão eclesial e mais intenso crescimento espiritual. O jejum, como ensina Jesus (cf. Mt 6), sempre deve se acompanhar à oração - íntima e sincera comunhão com o Senhor - e à esmola, qual partilha com os mais necessitados e empenho na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
O jejum eucarístico foi reduzido, desde os tempos do Papa Pio XII (1953), a três e, em seguida, a uma hora antes da comunhão, em sinal de respeito e de espiritual preparação. Isaque de Nínive afirmava: “O conhecimento dos mistérios de Deus não é possível a um ventre cheio”.
Dom Armando

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

QUARESMA: TEMPO DE CONVERSÃO 

Leituras:

Jl 2, 12-18
Sl 50(51)
2 Cor 5, 20- 6, 2
Mt 6, 1-6.16-18

Com a Quarta-Feira de Cinzas damos início ao tempo litúrgico da quaresma. É um dos tempos mais fortes da nossa Igreja porque nos propõe uma preparação espiritual fecunda para olharmos para dentro de nós mesmos, buscarmos as mudanças necessárias e caminharmos em direção à Páscoa, festa mais importante da nossa fé cristã.

Quaresma significa um tempo de 40 dias, mais precisamente, um tempo suficiente e oportuno para a renovação da nossa própria vida. Na Bíblia são vários momentos em que o número 40 aparece. É, pois, um número carregado de bastante significado. Jesus permaneceu 40 dias no deserto preparando a sua inserção na vida pública para cumprir a sua missão. Como cristãos somos, igualmente, convidados a nos prepararmos para a realização da nossa missão.

O tempo quaresmal nos convida a uma mudança de vida, dos nossos hábitos cotidianos, no nosso modo de ser. Sabemos, por experiência, que mudar-se não é nada fácil. Toda mudança implica empreendimento de esforços e prática de exercícios para que, de fato, a mudança ocorra. O Mestre nos ensina que precisamos do exercício verdadeiro da CARIDADE, DA ORAÇÃO E DO JEJUM. Esses exercícios devem ser verdadeiros e devem partir da essência do nosso ser para combater o egoísmo, raiz de todos os pecados. Eles não devem ser superficiais e feitos para serem mostrados, mas antes de tudo para mostrar-se a si mesmo em vista do bem dos irmãos.

No evangelho de hoje, Jesus ao falar desses exercícios, denuncia a hipocrisia, própria daqueles que são egoístas e que querem mostrar o que não são. Diz claramente: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles (Mt 6, 1a)”. Com isso deixa claro que há uma diferença entre a Justiça propriamente dita e a “justiça particular”. Esta última tem como medida “si mesmo”. Quando nós nos tornamos a medida da Justiça significa que já é uma injustiça, porque a sua finalidade é o interesse próprio e não o da coletividade.

O evangelho deste dia, juntamente com o tempo quaresmal faz um convite imperioso a uma re-avaliação da própria vida, sobretudo nessas dimensões apontadas por Jesus. Cada um deve repensar sobre a caridade que está ou não praticando. Recuso acreditar que um cristão que não faça caridade seja um verdadeiro cristão; repensar também sobre a vida de oração: o que eu rezo? Como rezo? A qual “deus” eu rezo? A quem se destina a minha oração? Minha oração é profunda ou rasa?; por fim, sobre o jejum, isto é, sobre as renúncias que fazemos ou deixamos de fazer. Num mundo que promete, sempre mais, a felicidade através das coisas que o mercado nos oferece, qual tem sido nossa disposição em renunciar daquilo que possuímos ou podemos possuir? A renúncia implica autocontrole em relação as tentações do ter. Muitos pensam que “tendo mais” também acabam “sendo mais”. Nunca é demais lembrar que o nosso SER, não passa pelo nosso TER.

A Quarta-Feira de Cinzas, por si mesma, é um convite forte à reflexão sobre o que somos. Ela lembra que somos “pó”, e “cinzas” nos tornaremos. Portanto, eis o que somos. Assim não custa parar para pensar que a humildade deve ser a porta-bandeira da essência/existência. Abandonar o orgulho deve ser a nossa meta cotidiana, para podermos nos sentir mais próximos e irmãos dos nossos irmãos, verdadeiramente.

Queremos lembrar que hoje, a Igreja do Brasil dá início a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e superação da violência” e com o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Este é um tema muito oportuno, principalmente por falar de um dos problemas mais graves da nossa sociedade. A Igreja profeticamente, corajosamente se debruça sobre temas difíceis da nossa realidade brasileira, convidando aos cristãos e não cristãos para refletir e buscar medidas que possam combater e amenizar essa úlcera, este câncer da nossa sociedade. No último ano foi-nos apresentado o balanço da criminalidade no Brasil. Foram mortas mais de 65 mil pessoas. Isto é um assombro. Vivemos exatamente um estado de guerra. Infelizmente as vítimas são os nossos jovens, pobres e negros em sua maioria. Constitui-se um verdadeiro extermínio da nossa juventude. Como cristãos não podemos fechar os nossos olhos para esta triste realidade.

Celebrar uma verdadeira Quaresma em vista da vitória de Cristo sobre a morte, uma mudança verdadeira do nosso ser interior se faz necessária. Escutemos a profecia de Joel: “Agora diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração e não as vestes, e voltai para o Senhor Deus... (Jl 2, 12)”. 

Pe. Nicivaldo
Pároco de Ibitiara

AS CINZAS


A todo ano, o início da Quaresma é marcado pelo rito da imposição das cinzas, rito que se encontra no Antigo Testamento como em rituais de várias religiões. Os antigos, em alguns lugares, levavam para casa algo dos sacrifícios fúnebres para se manter em comunicação com os defuntos. Para os hebreus, a cinza é sinal de dor, de humilhação, conversão e penitência. Um dia, com duras palavras, Jesus disse: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Se em Tiro e Sidônia se tivessem realizado os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demostrado arrependimento, vestindo-se de saco e sentado sobre a cinza (Lc 10,13).
A Tradição bíblica mantém viva a consciência da origem do ser humano, feito com o pó do solo (Gn 2,7); disso, expressa ter consciência Abraão: Sou bem atrevido em falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza (Gn 18,27). No decorrer da narração bíblica, tantas vezes, encontramos pessoas que se cobrem com cinza. Tamar derramou cinza sobre sua cabeça (2Sm 13,19); Mardoqueu rasgou as vestes, cobriu-se com pano de saco e espalhou cinza na cabeça (Ester 4, 1); Jó disse: acuso-me a mim mesmo e me arrependo, no pó e na cinza (Jó 42,6); o salmista confessa: Em vez de pão estou comendo cinza (Sl 102/101, 10); Daniel afirma: Voltei o olhar para o Senhor Deus procurando fazer preces e súplicas com jejuns vestido de saco e coberto de cinza (Dn 9,3).
A Igreja, introduzindo em sua liturgia o rito das cinzas, confirmava essa antiga tradição. Do resto, nossa experiência nos fala que tudo o que é vida, aos poucos, torna-se cinza. Prantas e animais, como todo ser humano tem este destino. As cinzas usadas para a celebração litúrgicas pertencem a velhos ramos verdejantes. Pouco tempo se passou, e agora se reduziram em um punhado de cinza. Nada expressa a fragilidade de toda vida mais do que essa cinza. O ser humano, tantas vezes soberbo, vaidoso, arrogante e iludido, olhando para a cinza, tem bom motivo para tomar consciência de sua permanente e estrutural provisoriedade e do valor limitado de cada coisa.
Abrindo a Quaresma, a Igreja convida seus filhos e filhas a tomar consciência dessa caducidade que acompanha a vida toda. Num rito, simples e austero, enquanto coloca um pouco de cinza (na testa ou na cabeça) diz: “Recorda-te que tu és pó”. As palavras que a liturgia hoje propõe recordam a pregação inicial de Jesus: “Converta-se e creia no evangelho” (cf. Mc 1,15). Desse modo, o rito convida a responder à humana fragilidade com um acréscimo de fé. A imposição das cinzas não visa humilhar, mas incentivar a consciência do justo valor das realidades terrenas; ela é – como reza a oração - uma bênção “para que os fiéis possam celebrar de coração purificado o mistério pascal do vosso Filho”; e para que “a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal” (oração do dia).
Escrevia o teólogo Romano Guardini: “Tudo se torna cinza. Minha casa, minha roupa... a mão com que escrevo, o olho que lê, o inteiro meu corpo. As pessoas que amei, as que odiei, as que temi. Tudo o que me apareceu grande sobre a terra, o que me apareceu pequeno, o que achei de valor: tudo cinza, tudo”.
Dom Armando